Por trás da objetiva: o subjetivo Rodrigo Wanderley

Aline Portela

Autorretrato

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Arteiro. Essa foi a resposta de Rodrigo Fiusa Wanderley quando o perguntei como ele se definia. É jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), porém, apesar do diploma, vive da fotografia. Seu gosto pela rua, principalmente no que se refere à vida pacata do interior baiano, vem da criação: nasceu em Santo Antônio de Jesus e viveu quase toda sua infância por lá. Experimenta, vive e constrói seus próprios mundos inventados. Tem fascínio pelo mistério e através da fotografia o explora, conta e inventa estórias.

Ainda na UFBA, iniciou-se como fotógrafo no LabFoto, onde passou dois anos e meio trabalhando e estudando. Em 2011, participou da fundação Olhos de Rua, projeto que leva projeções de imagens para espaços públicos de Salvador, e foi assim que começou a tomar gosto pelas exibições ao ar livre.

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Quando fala sobre seu trabalho, qualquer um sente o gosto que ele tem pelo que faz e a magia que consegue sentir e transmitir através da poesia que sempre (ou quase sempre) acompanha suas fotos. Essa característica vem de quem ele sempre cita:o poeta brasileiro Manoel de Barros. Sem dar muita atenção à poesia rebuscada, Rodrigo gosta de versos acessíveis, da poesia que reflete o mundo de forma simples, delicada e sensível. Adora inventar palavras. Dessa forma, são feitos os seus Causos Fotográficos, trabalho exposto através do seu “Varal Itinerante” e suas caixinhas de madeira recheadas de fotografia e poesia.

Ao sair para acompanhá-lo fotografando na feira livre da cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano, é fácil notar o quanto ele leva jeito para ouvir e lidar com as pessoas, para depois retratá-las do seu melhor jeito: através de poesias fotografadas. Conta que através da fotografia, encontrou a melhor maneira de conhecer e agregar pessoas. Posiciona-se, enquadra e fotografa coisas que passam despercebidas no dia-a-dia de cada um.

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É criador do projeto “Varal Itinerante”, porém, ele reforça quando comenta sobre isso: “Esse é um trabalho coletivo, sem as pessoas que colam na corda, nada aconteceria. Eu só planto a semente”. Através da criação desse projeto, conta com entusiasmo que o “Varal das Artes SAJ”, que ajudou a criar, segue firme. Seu projeto já passou por cidades baianas como Salvador, Cachoeira, Santo Antônio de Jesus, e as vilas de Garapuá, Igatu e do Capão. Na cidade de Cachoeira, expôs seu varal durante Bienal do Recôncavo em 2012 – na qual participou com seus Retratos Imaginados – e durante a Feira Literária Internacional de Cachoeira (Flica), em 2013. Além disso, seu projeto foi parar em São Paulo, nas ruas da USP e nos jardins do Parque Ibirapuera.

Além de Manoel de Barros, Rodrigo tem como inspiração o trabalho de Mario Quintana, Mia Couto e Guimarães Rosa. Todos artistas que tratam o simples e o cotidiano, assuntos preferidos dele. Ele conta que redescobriu a poesia tarde: “A literatura clássica e cheia de métricas, apresentada no tempo da escola, nunca me chamou atenção. Descobrir artistas como esses me despertou o gosto pela poesia que até então eu não conhecia”. Através da influência desses artistas, começou a escrever o que alguns amigos intitularam de “neo-cordel”: assuntos profundos em linguagem simples. Trata de questões filosóficas, poéticas e políticas, muitas vezes com humor. “Como não sou palhaço, a minha necessidade de fazer humor e ir para a rua se expressa dessa forma”. Sendo artista de rua, tem contato direto com as pessoas e adora sentir a espontaneidade delas.

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Além disso, vê a arte de rua e a arte pedestre como uma questão política, no que se refere à falta de atenção de políticas públicas que atendam a necessidade da cultura acessível para todos. “Esquina que tem músico não tem assaltante”. Perguntei se a frase era dele, mas ele disse que leu por aí.

Através do varal itinerante, a ocupação da praça de Santo Antônio de Jesus teve início pela arte. Além de ser uma ação que atrai o interesse das pessoas para a cultura, ela também questiona e exige a necessidade da arte e poesia no dia-a-dia da população. Espontaneamente, ele e mais alguns amigos ocuparam a praça da sua cidade natal com um cinema e fotografias. E o que começou com cerca de 15 pessoas, logo se transformou em dias de praça lotada de gente. Destaca o quanto o desenvolvimento cultural traz o desenvolvimento da cidade.

Atualmente, além de fotografar, Rodrigo estuda, ensina e realiza projetos coletivos. No Labfoto, dá aulas de Iluminação Criativa e faz parte do Grupo de Pesquisa em Fotografia Contemporânea (GRIP). Em oficinas como “Introdução ao Universo Fotográfico” e “Caixa Mágica”, leciona em Salvador e no interior baiano de forma independente. Com esse trabalho educativo, visa despertar o amor pela fotografia através dos seus mistérios, utilizando em paralelo o cinema, a pintura e a poesia.

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Já no final da conversa, perguntei se ele considera-se uma pessoa carismática. Ele me respondeu: “A fotografia na rua foi um instrumento para mudanças profundas. Fotografar nada mais é do que uma boa justificativa pra chegar mais perto das pessoas”. Não ganhei a resposta exata para minha pergunta, mas a conversa me rendeu uma boa conclusão: Rodrigo se esconde atrás da câmera, mas se mostra antes disso. É um jornalista que, por trás da objetiva, encanta através do subjetivo.

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Jaiadeva Seus: “As religiões pagãs buscam respeito e visibilidade”

Thielly Cristine Cassiano da Silva

Paganismo é o termo utilizado para definir religiões politeístas e não cristãs. Para alguns, o paganismo é, na verdade, uma cultura, tal como a oriental, ocidental ou aborígene. E, como toda cultura, possui uma espiritualidade típica que pode se traduzir em diferentes religiões. O Paganismo, em si, não é uma religião. A Wicca, a Bruxaria Italiana ou a Bruxaria Ibérica, para ficar em poucos exemplos, são religiões pagãs, ou seja, religiões que manifestam a cultura pagã.

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Jaiadeva Gosvami Seus, 26 anos, estudante de Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) é sacerdote da vertente da bruxaria tradicional Ibérica, tradição que remete ao culto marginal europeu aos deuses pré-cristãos. Atualmente cuida da iniciação de outra pessoa em sua religião.

Como funciona o Paganismo? Existe mais de uma vertente? Quais Deuses são adorados?

Primeiro temos que entender que o que chamamos de paganismo é um termo genérico para religiões e culturas pré-cristãs, cuja ligação homem e terra é focal durante a jornada religiosa. Logo, englobamos nesse universo diversas culturas, religiões e povos. Pagão vem do latim Pagus, “do campo”, e faz referência à religiosidade não oficial dos estados, ou seja, a religiosidade do homem comum buscando o sagrado no dia-a-dia. Existem diversas vertentes no mundo moderno do Paganismo e do Neo-paganismo (uma releitura de culturas antigas e formas de reconstrução dos cultos religiosos). Sobre quais Deuses são adorados: pela diversidade de origens das diversas vertentes e caminhos dentro do paganismo, existe uma imensidão de panteões cultuados, porém há um prisma em comum da relação adorante e adorado. Os Deuses nas religiões pagãs são a força que anima o mundo à nossa volta, se misturando com esse universo. Para nós, pagãos, os Deuses e o mundo ao nosso redor não possuem distinção tão clara, logo o sol e a força que anima ele são sagrados, o mar, os rios, a vida, a morte, tanto a dor quanto o prazer, o inverno quanto o verão, todos fazem parte do sagrado. Outra característica das religiões pagãs é a falta de dicotomia clara entre “bem e mal”, esses conceitos se tornam estranhos para nós, ainda mais quando buscamos um contato maior com a essência do mundo, não como o homem enquanto coroa da criação, mas como parte integrante dela.

Como você chegou ao Paganismo?

Cheguei ao paganismo por curiosidade. Aos 13 anos lia bastante sobre religiões e culturas, não me sentia incluso na religiosidade de meus pais, questionava posições focais da fé deles. Em minhas leituras e pesquisas conheci um grupo de Bruxaria tradicional Ibérica. Aos 14 anos fui aceito por eles, com autorização dos meus pais. Acho que cheguei no paganismo por afinidade com a busca que ele propõem, além de um encanto que se tornou amor pelos Deuses em meu caminho.

Qual a sua vertente? Que deuses você cultua?

Minha vertente é a Bruxaria tradicional Ibérica, de veneração grega. Cultuamos em nosso caminho um grupo de Deuses gregos durante as celebrações solares, temos caráter politeísta, e durante o dia-a-dia cultuamos diversas divindades gregas. Fica difícil e longo começar a listar, mas posso falar que podemos dividir o culto em dois, o culto sazonal, onde cultuamos um grupo de divindades junto da vivência dos mistérios nos ritos solares (oito festas anuais), e o culto lunar, mais íntimo e pessoal, onde Deuses e adoradores comungam juntos.

Há quanto tempo você pratica? Existe uma idade ideal para iniciar os “estudos”?

Estou em meu caminho desde meus 13 anos, logo pratico há 12 anos. Cada caminho e vertente vai ter suas próprias regras sobre idade, meu caminho costuma aceitar maiores de idade ou jovens que tenham apoio dos pais para começar o treinamento. Porém, pelo histórico de perseguição e pelo “sair das sombras” a poucas décadas de diversos grupos, a maioria não abre as portas para todos que buscam, mas convidam alguns onde o desejo de trilhar seja verdadeiro e que estejam dispostos a guardar segredo e seguir de maneira séria. Por isso acabamos não vendo muitos adolescentes seguindo e grupos mais fechados.  Eles costumam seguir de maneira menos normativa e mais eclética, somando nuances de diversos caminhos do paganismo em sua prática pessoal.

Existe alguma restrição de gênero, sexualidade ou outras, quanto à prática do paganismo?

Outra vez esbarramos na problemática do paganismo ser um bojo de tradições tão diversas, de estradas tão plurais, que cada uma vai ter suas regras sobre diversos temas. Este não é diferente. Existem grupos como a Wicca Gardneriana onde homossexuais não são aceitos, pelo viés “da busca pela polaridade divina representada no sexo”. Já grupos Diânicos não possuem restrições para seus praticantes, possuindo sacerdotisas transexuais em seu corpo sacerdotal. Minha tradição não possui restrições enquanto sexualidade, vendo a busca do amor como algo de muitas vias, não existe uma diferenciação sobre o gênero para o sacerdócio, sendo que entendemos a diferença da mecânica masculina e feminina em contato com a natureza e os mistérios que cada um passa. Curiosamente não são aceitos transexuais, pelas modificações que são feitas no corpo, não que isso se configure em alguma forma pecado ou noção similar, nem que um transexual não possa cultuar os Deuses com afinco e amor, porém, no caminho sacerdotal não é aceito.

Existe alguma forma de preconceito quando descobrem sobre sua religião?

Existe bastante preconceito, fruto de mau entendimento e por meio de matrizes cristãs. Não sacrificamos pessoas, não matamos indiscriminadamente animais, não acreditamos no Deus cristão como nosso senhor, nem em um demônio. Não fazemos magia negra, não vemos cor na magia, mas uma complexa noção de ação e reação, não bebemos sangue ou fazemos orgias durante rituais, por mais que existam tradições nas quais o sexo seja considerado um ato sagrado onde se pode tocar o divino. Muitas lendas medievais e propagandas da Inquisição ainda continuam vigentes no mundo moderno, onde as pessoas acham loucura acreditar na sacralidade do mundo à nossa volta e no contato mais íntimo entre homem e Deuses. É fácil se revoltar quando a cultura que é atacada em uma visão simplista é a sua, o difícil está em respeitar o que não compreende ou o que soa diferente do que está acostumado a ouvir. Felizmente, hoje gozamos, pelo menos no Brasil, de liberdade religiosa garantida pela lei.

Qual a posição do paganismo quanto às religiões monoteístas?

Não temos uma posição em si. Vemos como outros caminhos para o divino, caminhos diferentes do nosso, mas que ajudam muitas pessoas a mudar e chegar a algo melhor em suas vidas.

Há muitos praticantes na Bahia e mais especificamente no Recôncavo baiano? Onde você iniciou seus estudos?

Eu iniciei meus estudos em Salvador. Na Bahia, há muitos praticantes do Paganismo, em suas múltiplas vertentes. Existem alguns grupos mais estruturados e muitos ecléticos. Não conheço nenhum grupo além do meu no Recôncavo, mas sei que existem alguns ecléticos.

Existem reuniões entre os grupos no Recôncavo e no Brasil?

Mesmo existindo muitas vertentes do paganismo, ainda assim possuímos uma luta em comum: a busca pelo respeito e visibilidade. Existem diversos encontros em âmbitos internacional, nacional e regional. Possuímos o Dia do Orgulho Pagão comemorado no dia 23 de setembro, onde, pelo mundo, diversos pagãos de diversas vertentes se encontram para celebrar a diversidade, compartilharem de um momento entre iguais, comemorando a liberdade religiosa e estreitando laços, além de educar a população sobre o que é e o que não é paganismo. Possuímos no Brasil encontros regionais com o mesmo propósito, como, por exemplo, o Encontro Social (ESP) e muitos outros ligados a diversas organizações que ocorrem mensalmente, visando essa mesma interação e educação do povo para esclarecer o que é e o que não é paganismo, reunindo pessoas que possam estar isoladas em sua fé, sem conhecer outros que comunguem dos mesmos ideais, e assim possam seguir juntos ou para que pessoas que buscam grupos possam conhecer pessoas que estejam nesses grupos e assim estreitar relações.

Quais são as responsabilidades de treinar outra pessoa?

A responsabilidade é grande. O treinamento para o sacerdócio antes de tudo é uma jornada do se descobrir, se reencontrar completo. É um matar das capas e das máscaras para renascer de dentro da semente que foi construída em cima de nosso verdadeiro “Eu”, um “Eu” não perfeito ou imaculado, mas natural, completo, único. Então guiar uma pessoa nessa jornada é algo que pede responsabilidade e intimidade. Em minha tradição, e em muitas no Paganismo, encaramos o receber de uma pessoa em um grupo como um entrar para uma família, onde o iniciador se torna um pai e uma mãe, um amigo, um irmão mais velho. É algo que não deve ser tomado levianamente, pelo menos a meu ver e de minha tradição. Em meu caminho, a pessoa que deseja adentrar nele foi convidada, passa um tempo estudando o que é esse caminho, as nuances públicas dele, enquanto o sacerdote analisa se um convite para entrar deve ser feito realmente. Afinal, encaramos uma tradição como uma família. Hoje em dia, as coisas estão mais maleáveis, temos de entender que muitas tradições pagãs sobreviveram em núcleos familiares durante a perseguição cristã e católica, [feitas pela] Inquisição. Assim muitos se fecharam totalmente, entrar para a religião é o mesmo que entrar para a família.