Um espetáculo de lembranças

UM PASSEIO PELA HISTÓRIA DO CINETEATRO CACHOEIRA NA MEMÓRIA DO ANTIGO PROJETISTA, ADILSON MACHADO.

Fabio Rodrigues Filho

Faz quase 25 anos que não se assiste e nem se apresenta uma peça, nem um filme no Cineteatro Cachoeira. Prédio imponente, já reformado, de portas e janelas envernizadas e fachada gelo, que ao olho desatento, não denuncia a imensidão trancada nas portas que lhe dão acesso.

Das pessoas que eu conversei sobre o cineteatro, Adilson Machado é o que guarda mais lembranças e emoção ao pensar no período áureo de movimentação no tablado e na tela. Prestes a completar 85 anos, sua vida se confunde com a história do local. Não só por se tratar de um grande amante do cinema, mas também por contribuir muito com o Cineteatro Cachoeira, acionando o olho do projetor ou se emocionando ao assistir um filme lá.

Com vinte anos, em Itajuípe, na região cacaueira baiana, seu Adilson já tinha sido pedreiro, pintor, alfaiate, balconista e, sobretudo, assíduo espectador do cinema da cidade. Quando soube da oportunidade de trocar seu salário de 420 cruzeiros por 600 cruzeiros indo trabalhar no cinema, não pensou demais. Largou o emprego de balconista e foi num domingo aprender sobre projetor de filmes.  Trabalhou por outras cidades da Bahia onde a empresa estava abrindo cinemas, como Vitória da Cachoeira, aprendeu idiomas e chegou em Cachoeira, em 1952, quando a empresa Marom arrenda o até então Cine-Teatro Cachoeira, mudando o nome para Cine-Teatro Glória.

Seu Adilson tornou-se operador chefe, projetava os filmes – o cineteatro possuía dois projetores, o que possibilitava projetá-los sem intervalo e um título de moderno –, produzia os cartazes de divulgação com destaque para os filmes coloridos, gravava as chamadas das exibições e também morava no cinema. Guardava em um dos camarins suas malas, fotos e tinha uma cama. Foi assim que o projetista tornou-se morador cachoeirano.

O até então Cine Real. Nessa época, o primeiro andar possuía marquise ainda. Foi na varanda central que Thelmo, um dos diretores caiu e morreu na porta do cineteatro. (Foto: Arquivo pessoal de Raimundo Carvalho)

“Eu trabalhava em Conquista, vim para reinaugurar [o cinema] com a Marom, que  arrendou e fez a reforma. [Tinha] Tela maior [CinemaScope], dois projetores, projeção sem interrupção. Com um certo tempo, ele se chateou com o cinema e vendeu ao próprio gerente. Passou a ser o Cine Real. Depois disso um rapaz de Valença quis arrendar o cinema, mudando pra Cine Simões. Com um certo período, caiu a renda, entregou à empresa [Marom], entrando Thelmo”. Foi quando recebeu o nome de Cine Teatro Cachoeirano, acrescenta Adilson lembrando que o cinema foi administrado pela família Dayúbe com o nome de Cine Astro. Voltaria ainda para as mãos de Thelmo e depois de Luís, atual diretor da Santa Casa de Misericórdia. Resumindo a longa história de arrendamentos e de muitos diretores do cineteatro.

As apresentações no cinema eram sempre eventos na cidade, todos se encontravam, vinham de fora e havia uma emoção coletiva ao partilhar do momento mágico de brotar da tela cor, som e lugares que não se imaginaria. “Iam duas filas até de junto do brega, duas filas pra comprar ingresso. O salão era 480 poltronas. No bar Night on Day todo mundo ia pegar cadeira emprestada pra não ficar em pé. Tinha sessão que chegava a 700 pessoas. Quando precisava passar dava um trabalho desgramado, tomavam todo corredor. Todos filmes bons superlotavam.” Coincidiu que naquele tempo, Cachoeira não era ligada a Salvador pela estrada de rodagem, o transporte era trem e navio, o pessoal ficava aqui. O pessoal do sertão vinha pegar o navio aqui. Os que não podiam pagar hotel, ficavam na praça, aí compravam ingresso pra dormir no cinema. Seu Adilson era também o responsável por acordar os desabrigados e por pra fora do cineteatro, muito embora ele entendesse bem do prazer de morar no cinema.

Ruínas: a situação do cineteatro antes da revitalização. (Foto de divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo. Fotógrafo: André Souza)

A realidade das enchentes que assolavam Cachoeira não poupou o cineteatro. Em 1960 uma grande enchente viria prejudicar o cinema todo. Os funcionários entraram de canoa pelo primeiro andar do cinema e salvaram os equipamentos mais importantes.

“As enchentes vinham até a marquise, a de 60, foi 10 cm dentro da cabine. 25 de junho passava um filme de toda história de Cachoeira, tinha de passar esse filme como lembrança, a gente esqueceu de baixo da cabine,  com os jornais, aí perdeu a imagem toda na enchente. A água veio 10 cm dentro da cabine, na enchente de 60. No fundo da camarim, tinha minha cama, minha coleção de revista, fotos…”. No dia da enchente, Seu Adilson queria ainda dormir em seu quarto, mas foi impedindo pelos amigos. Se tivesse dormido, talvez não tivéssemos o cineteatro tão vivo hoje.

Apesar das dificuldades e surpresas como um cinema afogado, trabalhar no cinema aumentou a paixão de seu Adilson por filmes. Dentre os vários filmes exaustivamente assistidos, ele escolhe como preferidos:“Ave do paraíso, que espetáculo! Duas sessões… filme que deixou saudade mesmo. Nunca mais esse filme voltou, ninguém sabe da cópia desse filme. Filme bom, colorido… 7 noivas para 7 irmãos, o filme que mais passou…”. Ao se tratar dos shows, Adilson destaca: “Vicente Celestino que foi um espetáculo, com aquela voz maravilhosa. Orlando Silva, o cantor de minha predileção”, os artistas que vinham se apresentar no cineteatro ficavam hospedados logo em frente no Hotel Colombo, a praça inteira se organizava e vivia em função das apresentações.

Uma curiosidade sobre as exibições, é que enquanto passavam os filmes de bang bang, de tanto ver, Adilson ficava na cabine imitando os personagens, até alguém se incomodar com a zoada e cortar a cena. Após o sucesso seguido do desprezo aos filmes de bang bang, o cineteatro passou a exibir as pornôs chanchadas. “Eu propus a sessão coruja. Após as projeções de filme normal, fazia a sessão coruja. Só para homem, com exceção para as meninas do brega. Os filmes vinham da Holanda em 8 mm, as pessoas depois de um tempo não aguentavam mais o repeteco”, o cineteatro começava a entrar em decadência de público. Nesse mesmo período, uma companhia teatral que apresentava sexo explícito no palco foi trazida para levantar maior público. “Hoje o cineteatro apresenta sexo ao vivo só para homens”, anunciava seu Adilson pelas ruas da cidade no intuito de levantar o cineteatro. De operador para plateia, Adilson ficou logo na frente na apresentação. O cenário: três camas e uma mulher em cada uma delas, enquanto os homens ficavam atrás da tela se preparando. “Um broxou na hora, depois voltou e fez o serviço”, conta em voz baixa e rindo da cena.

Teatro revitalizado

Fachada reformada do Cineteatro Cachoeira. O local segue fechado para visitações.  (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

Fachada reformada do Cineteatro Cachoeira. O local segue fechado para visitações. (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

“Ficou bacana para o que era o prédio. Hoje tem um cinema moderno, achei modificações no salão, o paredão da cabine. Mudança na escadaria e na sala de projeção. Houve uma reforma muito grande! Eu tô sentindo que não demora muito pra abrir.” O antigo funcionário não esconde a emoção de poder ver o cinema funcionando de novo, e com filmes e peças produzidas aqui. Ele considera que a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) deve ficar com uma parte do cineteatro para fazer suas produções, amostras e eventos em geral. A decisão atual é que a Prefeitura da Cachoeira irá gerir o cineteatro, por um entendimento do Iphan junto à própria prefeitura.

“Antes era uma alegria, vinha esse pessoal todo assistir as matinês, quando quebrava uma parte [do filme] havia muita zoada. Era bacana!”, completa destacando a importância de ver de novo as crianças no teatro, lembrando da festa que era quando as crianças vinham do bairro do Caquende [bairro onde começou Cachoeira] para as matinês, todas juntas correndo para a Praça Teixeira de Freitas.

 Na sala principal, em razão das plataformas retráteis, as várias configurações da plateia proporcionam possibilidades cênicas diversas, como teatro de arena, semi arena ou italiano. O projeto arquitetônico é de Alexandre Prisco, com a colaboração de Vinicius Bustani e André Souza. Coordenação técnica local do Monumenta: Gabriel Gonsalves e Eduardo Fucs. (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

Na sala principal, em razão das plataformas retráteis, as várias configurações da plateia proporcionam possibilidades cênicas diversas, como teatro de arena, semi arena ou italiano. O projeto arquitetônico é de Alexandre Prisco, com a colaboração de Vinicius Bustani e André Souza. Coordenação técnica local do Monumenta: Gabriel Gonsalves e Eduardo Fucs. (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

Seu Adilson trabalhou de 1952 a 1992 no Cineteatro Cachoeira. Hoje está aposentado, continua vivendo em Cachoeira, construiu família aqui, compra pão todos os dias no mesmo horário, segue com sua voz de locutor e costuma ficar na porta de sua casa com um largo sorriso para os passantes ao cair do sol. Leva consigo a memória viva do Cineteatro Cachoeira e assim como toda a população cachoeirana aguarda a abertura da nova e velha casa de espetáculo mais importante do Recôncavo Baiano.

Que as portas do cineteatro estejam abertas para muitas outras histórias como essa, que daria um ótimo filme ou uma excelente peça.

Histórico do Cineteatro

  • Em 12 de abril de 1923, é inaugurado o Cineteatro Cachoeira, de propriedade do senhor Cândido Vacarezza.
  • A empresa Marom, arrenda o teatro em 1952 e o transforma em Cineteatro Glória.
  • Nos anos 50, grandes artistas da música brasileira,como Luiz Gonzaga, Vicente Celestino, Ângela Maria, Orlando Moraes, Sílvio Caldas, se apresentam no cinema com grande lotação.
  • O filme O mágico e o delegado é filmado dentro do cinema. No elenco estava a atriz Tânia Alves.
  • Depois de vinte anos fechado, já em ruínas, sem a fachada principal, o prédio foi comprado em 2009 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por cerca de R$ 179 mil. A reforma foi uma contrapartida do governo do Estado da Bahia e o Programa Monumenta, também do Iphan.
  • A reabertura do teatro foi adiada duas vezes. Segundo o secretário da Cultura da Cachoeira, José Luís. Já foi comprado um transformador especial pro ar-condicionado, que estava dando problemas de funcionamento. Com a chegada do transformador, haverá um teste geral de todos os equipamentos e será marcada uma data oficial, sem pressa.
  • A Prefeitura Municipal da Cachoeira assumirá a gerência do teatro, ainda segundo o secretário de cultura, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) terá seu espaço também para eventos e realizações. O secretário não definiu ainda como será, mas pensa em um dia da semana o Cineteatro ficar à disposição da universidade.
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Dois olhares sobre “Edifício Master”, obra-prima de Eduardo Coutinho

PASSADOS QUE NÃO PASSAM DÃO O CLIMA CLAUSTROFÓBICO DO ‘EDIFÍCIO MASTER’

Uilson Campos

Uma professora de inglês paranóica, uma garota de programa dissimulada, uma mal sucedida cantora de bailes. O que essas pessoas teriam em comum? O fato de dividirem os compartimentos de um mesmo prédio. Vidas que, embora separadas por paredes, em muitos aspectos se somaram e deram a identidade do emblemático Edifício Master, prédio carregado por um passado que parece não passar.

Elas são apenas algumas dos vários personagens reais que estrelam, ainda que como estrelas decadentes, o documentário dirigido por Eduardo Coutinho que leva o nome do prédio que abriga famílias de classe média/baixa situado em Copacabana, contrastando com a vida elitista de um dos mais nobres bairros cariocas. Em Edifício Master, o cineasta passa uma semana habitando no local e gravando depoimentos dos mais diferentes moradores.

O Master, que já serviu como antro de prostituição, ambiente frequentado por usuários de drogas e onde ocorreram suicídios e assassinatos, é representado pelos habitantes de forma que seus testemunhos pessoais se misturam com a história do edifício.

Os depoimentos dos moradores são conduzidos pelo cineasta em entrevistas. Cenas dos corredores sombrios, silenciosos e pouco movimentados do prédio servem de passagem entre um personagem e outro. Embora possuam vidas muito parecidas, o documentário mostra que os habitantes do Master têm pouco contato entre si, caracterizando um clima de solidão que é bastante marcado em suas falas.

Um tipo bastante constante no documentário é o do idoso que mora sozinho, embora tenha filhos ou outros parentes, sendo esquecido, distanciado ou abandonado pela família. Casos como o da ex-costureira da elite carioca que, após ficar viúva, busca um novo companheiro; o de uma cantora que disfarça a solidão ouvindo música em uma vitrola antiga; ou o de um homem divorciado e que não encontra mais emprego, por conta da idade avançada. Nesses momentos, prevalece o tom de nostalgia que parece impregnar as paredes do edifício.

O documentário também evidencia a diversidade presente no local, onde vivem pessoas de diferentes culturas, vindas de diversas partes do Brasil e até de outros países. Moradores inusitados, como os jovens integrantes de uma banda que desejam fazer sucesso com a música, a estudante universitária que sonha em seguir uma profissão e a jovem que faz planos de morar nos EUA com o namorado americano destoam do perfil de ‘fim de carreira’ dos outros habitantes.

Com cenas que reforçam o aspecto claustrofóbico do ambiente, onde cada um vive suas memórias de forma particular, o documentário consegue fazer da câmera aquilo que uma das moradoras diz acontecer com os vãos das janelas de seu apartamento, em que “a vida das outras pessoas entram pelos basculantes”.


UM OUTRO MAR EM COPACABANA

Nicolle Cajado

Copacabana, Rio de Janeiro. Famoso e “nobre” bairro da ‘Cidade Maravilhosa’. A inspiração de tantas canções abriga também ‘seres comuns’. Uma parte no convencional Edifício Master, que possuiu 200 apartamentos e cerca de 500 moradores. Edifício que dá nome ao documentário de Eduardo Coutinho, onde ele mostrou a semelhança sentimental na individualidade de moradores que aparentemente não tem relação alguma além da vizinhança silenciosa.

Os corredores deprimidos do Master carregam uma história com má reputação. Antes o edifício era um ambiente onde a vida boêmia era constante. Festas mal vistas, prostituição e crimes não eram surpresas no passado do Master. Ao mesmo tempo em que a história do prédio é contada pelos antigos e recentes moradores, eles colocam-se nela. Confundindo o caráter histórico e individual, e depois transferindo o filme para depoimentos pessoais.

A equipe entrando e falando com os moradores, os cômodos dos apartamentos mostrados calmamente, as perguntas do diretor que podemos ouvir, são coisas aparentemente simples, mas que revelam a índole realista da obra. A cada depoimento, percebemos que por trás das angústias ou contentamentos que são contados, há um sentimento em comum entre os moradores. É tudo muito íntimo e pessoal, mas também há uma sensibilidade habitual nas histórias.

Apesar dos contextos, das idades, das profissões, da relação de cada morador ser diferente, todos acabam construindo uma alusão à relação do ser humano com o mundo e nos fazendo refletir sobre tal relação. Os habitantes do Edifício Master mostram que independente de onde moramos, estamos dentro de um mar de melancolia onde nossas angústias e frustrações estão mergulhadas dentro da chamada privacidade.

O filme ganhou o Prêmio Margarida de Prata e o troféu APCA na categoria de melhor documentário, além de ter vencido o Festival de Gramado (2002) nas categorias de melhor documentário, melhor roteiro original e melhor diretor. A simplicidade e naturalidade com que as entrevistas foram desenvolvidas garantem o intimismo que criamos com cada morador no decorrer do filme. Isso coloca em prova qual é o verdadeiro papel da privacidade num prédio onde os moradores não falam com seus vizinhos, mas contam sua história para um desconhecido.

As máscaras de um artista

AS CONTRADIÇÕES CULTURAIS DE UMA DAS FESTAS POPULARES QUE MAIS ATRAI TURISTAS NO RECÔNCAVO.

Tarcila Santana

O carnaval do município de Maragogipe é uma festa tradicional que, segundo historiadores, ocorre há mais de cem anos. Em 2009, foi tombado como patrimônio Cultural Imaterial da Bahia pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC). A festa passou a ser bastante divulgada pela mídia do estado e se tornou famosa pela mistura das tradições europeia, indígena e africana, retratada através das fantasias e máscaras – marcas do carnaval da cidade.

Aliada à popularização e difusão da festa, a produção de máscaras para o carnaval transformou-se em atividade comum entre alguns artistas plásticos locais. Para perceber a festa sob outra ótica, entrevistamos o artista plástico Edmilson Pereira, 79, que produz máscaras de carnaval há cinco anos.

O artista

Edmilson, ou Ed Pereira, aprendeu a fazer as máscaras com seu irmão, ainda na adolescência. Para aprimorar o artesanato, fez um curso de papel machê e aplica as técnicas aprendidas na confecção das peças. Apesar de ter aprendido há tanto tempo, só decidiu começar essa atividade há poucos anos. Sua inspiração vem das revistas e televisão. Ele explicou como é o processo de produção e contou que o trabalho é coletivo, pois sua esposa e filhos também participam de algumas etapas da confecção.

Além das máscaras, Edmilson também faz esculturas com raízes mortas das plantas de manguezal. Ele já expôs suas obras em alguns lugares de Salvador, como o Pelourinho, Espaço Berinjela e os colégios São José e São Salvador. O Instituto Mauá também já comprou algumas de suas máscaras. Apesar de já ter feito algumas exposições, decidiu dedicar-se com mais empenho à produção das máscaras, deixando um pouco de lado o trabalho com as raízes do mangue.

Uma arte para turistas

Todo o fomento e divulgação da folia momesca trazem para a cidade uma visibilidade muito grande durante essa época do ano, que chega a ultrapassar fronteiras e atrair turistas de várias partes do país e também muitos estrangeiros. Através de obras levadas por Edmilson até a Casa da Cultura de Maragogipe, alguns turistas chegaram a visualizar e comprar seu trabalho, que foi divulgado em revista estrangeira ano passado.  A revista Floreal do Recôncavo, de Cachoeira, produziu um impresso sobre o carnaval de Maragogipe, que homenageou o artista na primeira página.

Apesar dessa visibilidade externa, dentro do município as coisas são diferentes. Quando perguntado sobre a valorização dos artistas plásticos em Maragogipe, ele afirmou que isso não acontece e a própria população já nem se importa mais com seu trabalho. Durante um ano, Edmilson montou um pequeno ateliê em Maragogipe e não recebeu visita alguma da população local, bem como nenhum apoio ou divulgação por parte de alguma instituição da cidade. Ou seja, mesmo com o esforço para preservar e difundir a cultura local existe uma contradição; o apoio e a valorização dos artistas, que constituem parte da história do carnaval, são mínimos.

Embora esse aspecto seja perceptível na fala do artista, ele não coloca os fatos em tom queixoso; apenas conta suas histórias e se orgulha muito do seu trabalho. Segundo ele o artesanato é uma “higiene mental, uma terapia sem preço”.

Além de falar sobre sua arte, Edmilson ainda contou um pouco sobre os antigos carnavais e as mudanças que ocorreram no decorrer do tempo, afirmando a necessidade de manter as tradições, reconhecendo seu próprio papel nessa preservação.

Casa de Barro: cultura, arte e educação no Recôncavo

HÁ NOVE ANOS, A ENTIDADE PROMOVE EVENTOS EM PROL DO DESENVOLVIMENTO HUMANO.

Sarah Sanches

A Casa de Barro é uma organização não-governamental, fundada no ano de 2005. Possui, entre seus objetivos, a promoção da cultura e o desenvolvimento do caráter humano através da arte – com exposições, cursos, eventos artísticos –, cultura – com apresentações teatrais, grupos de leituras -, e educação – com cursos, disponibilização de livros e outros. A Casa de Barro conta hoje com a colaboração de oito mulheres, cinco delas arte educadoras e as demais coordenadoras – geral, de Comunicação e de Arte Educação.

As ações da ONG são multifacetadas. Nos últimos cinco anos, cerca de 26 eventos foram promovidos. Entre eles, Dedinho de prosa, Cadinho de memória, que em 2012 alcançou sua terceira etapa com o lançamento de um livro homônimo. O projeto é uma iniciativa interdisciplinar. Em 2009, na cidade de São Félix, desenvolveu uma oficina de criação literária e de incentivo à leitura; em 2011, em São Félix e Cachoeira, ofertou curso de formação de multiplicadores para educadores formais e não-formais, e em 2012, lançou o livro resultado de um trabalho de investigação sobre a memória oral de Cachoeira visando o incentivo à escrita e a leitura de crianças, adolescentes e jovens adultos.

“A Casa de Barro participa de forma muito efetiva na formação de jovens e crianças e na construção da identidade, uma vez que seus projetos têm esse caráter histórico-social e as pessoas envolvidas na realização estão sempre muito dispostas. Ela ajuda nessa percepção do mundo e nessa interação de forma criativa e lúdica”, afirma Fábio Rodrigues, estudante de Jornalismo da UFRB e artista integrante da companhia de comédia Bocó, que participou do último evento ocorrido na ONG, o Encontros Poéticos. Na programação do encontro: feira de trocas de livros, declamações de poesias, atividades de desenho e pintura, apresentação de dança e musical, lançamentos de livros e recital performático.

Redes Sociais

Em 2013 foram realizados nove projetos demonstrando a evolução da organização que em seu primeiro ano promoveu um único evento de grande porte: o Caruru dos 7 poetas. No mês de março, em homenagem ao aniversário de Castro Alves e ao dia nacional da poesia acompanharam o Grupo Rouxinol de Poesia em um cortejo poético pela cidade de Cachoeira.

Yasmim Marinho, graduanda em Comunicação Social, conheceu recentemente a organização. Segundo ela “o espaço é bem bacana, os ambientes foram bem utilizados, cada cômodo tem uma utilidade diferenciada, tornando a casa um lugar tão multifacetado quanto a proposta da própria ONG”. A Casa de Barro conta, entre outros espaços, com uma biblioteca, varanda ampla a céu aberto onde ocorrem oficinais e apresentações, uma estante para sebo.

Nas redes sociais, a Casa de Barro mantém uma página de eventos que visa incentivar a leitura durante todo o ano. Intitulada como: “Desafio Leituras de Mundo – Incentivo à leitura”, o objetivo da página de livre participação é que aqueles que lá estão conectados dividam suas experiências literárias, enviando suas próprias resenhas e compartilhando com os demais, na tentativa de alimentar a curiosidade pela literatura. Além disso, na página oficial da organização constam dicas de leituras, mensagens com valores simbólicos, fotografias dos eventos já passados e promoção dos eventos culturais ocorridos nas cidades de Cachoeira e São Félix, estendendo seu papel social das ruas calçadas das cidades.

 Diálogos e limitações

Apesar da beleza e significância dos trabalhos realizados pela organização, ainda existem outras limitações no que se refere ao desenvolvimento e promoção da arte e da cultura na cidade. Como bem lembra Fábio Rodrigues: “A UFRB é um importante agente nessa promoção cultural, sinto que há um empenho, que precisa ser repensado sempre e melhorado, mas também vejo que há ainda pouco diálogo com o espaço, a questão do sentir o chão que pisa, principalmente dos artistas advindos da Universidade. Acredito que falta incentivo governamental para as produções tradicionais, viabilizando o contato, a exibição. Tem o Cineteatro Cachoeira que não foi aberto ainda, mas que será uma grande oportunidade, espaço, para os artistas da terra – isto se for realmente bem gerido. No mais, vejo uma vontade e disponibilidade grande dos gestores dos centros culturais, dos espaços artísticos para ocupar esses locais e se produzir, tanto em Cachoeira quanto em São Félix. E sei que ideias não faltam, mas para elas tomarem forma, cor, cheiro, é realmente necessário ajuda”.

O Recôncavo em telas

COMO A REGIÃO É REPRESENTADA ATRAVÉS DAS ARTES PLÁSTICAS.

Thainá Dayube

O Recôncavo baiano tem como principal característica sua grande variedade de elementos, sejam históricos, culinários, religiosos, musicais ou arquitetônicos. Cada cidade possui suas peculiaridades, contribuindo para a grande diversificação existente.

As comidas antigas se fundem com novas receitas, músicas que surgiram em séculos passados hoje interagem diretamente com ritmos novos, a arquitetura barroca dos casarões coexistem com construções mais modernas, com as artes plásticas não poderia ser diferente. Artistas representam a região em diferentes estilos, sejam eles surrealistas, abstratos, ou em uma gravura, o Recôncavo ganha diversas formas a partir de diferenciados olhares e traços.

 Os artistas que vivem nessa região são muitas vezes influenciados pelas pessoas, costumes e vivências. O artista plástico Pirulito, diz que a religião, o folclore, as brincadeiras lúdicas e as cores  do Recôncavo o inspiram na hora de pintar. Já Suzart, artista que segue uma linha mais surrealista, diz: “Me inspiro nas pessoas e costumes do Recôncavo pois sou fruto desta região.” Com obras mais abstratas e contemporâneas, Sales afirma que, de uma certa forma, toda essa mistura e cores regionais acabam influenciando seus quadros, mesmo que seja de forma indireta.

Antes dos atuais nomes que representam as artes plásticas na região, Dante Lamartine era o pintor mais atuante. Sales e Suzart afirmaram ter influência direta de Dante. Mesmo que pintem em estilos diferentes, a obra do artista os influenciou fortemente. “Tive a influência direta da arte de Dante Lamartine, porque sempre tive contato com seus trabalhos em exposições na cidade quando era jovem’’, diz Sales.

O reconhecimento da arte feita no Recôncavo é um assunto que gera controvérsias. Para Suzart, “temos muitos artistas respeitados e admirados em vários lugares no mundo, principalmente os escultores cachoeiranos’’. Já Pirulito acha que falta um pouco mais de reconhecimento. Independentemente das opiniões, todos afirmam trabalhar para levar a arte regional para fora e fazer com seja reconhecida em outros lugares.

Seja através dos pincéis e tintas, madeira esculpida, lentes de uma câmera ou som de um instrumento, o Recôncavo vem sendo representado através das artes. Seu artesanato passado de geração em geração, nas famílias, seu grande acervo arquitetônico, sua música e culinária própria. Tudo isso é história, tudo isso é arte.

Arte e educação para libertar

A DANÇA COMO EMANCIPAÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO RECÔNCAVO DA BAHIA.

Yasmim Marinho

O Grupo de Apoio ao Menor Gotas de Esperança – GAMGE – foi fundado em 1997 com o objetivo de tornar os espaços de tempo ociosos de crianças e adolescentes carentes em um momento de aprendizagem, possibilidades e libertação através, principalmente, da dança. É uma organização não-governamental que recebe apoio dos moradores de Cachoeira através do recolhimento de notas fiscais pelos mercados da cidade. As pessoas assistidas pelo grupo encontram-se na terceira infância e adolescência, abarcando, portanto, a faixa etária dos sete aos dezenove anos de idade.

Localizado em frente ao colégio Simontom, o GAMGE, além da oficina de dança, afro e street dance, promove palestras e eventos educativos, como a ocorrida no final do ano passado, em novembro de 2013, sobre a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e AIDS, trazendo para a apresentação o presidente da Sociedade Brasileira de DST/AIDS da Regional da Bahia. Oferece ainda reforço escolar, aulas de karatê, de capoeira e oficinas, como a oficina de Zumba ocorrida em julho de 2013, ou realiza passeatas com fins políticos, como a II Caminhada em Defesa do Meio Ambiente em parceria com a prefeitura de Cachoeira. O pessoal participante da oficina de dança conta ainda com a participação especial e esporádica de outros dançarinos ou grupos, como o Grupo de Dança da UFBA ou ainda presenças internacionais como o dançarino angolano João ou o chileno Raphael Ortega. O grupo já gravou dois DVD’s, um de hip hop e outro de street dance.

Sheyla Silva, estudante da UFRB, que atua como monitora do grupo de dança na organização, fala a seguir sobre suas atividades.

O que precisa para se cadastrar no projeto?

Antes de mais nada é preciso que a pessoa se interesse por uma das modalidades oferecidas como capoeira, karatê, hip hop e dança afro. Para fazer o cadastro é necessário, se for menor de 18 anos, a presença dos pais e com o documento de identidade; se for maior de idade, é só levar o documento de identidade. A instituição aceita jovens de 7 a 19 anos.

O que te fez ir para o grupo? Quais as atividades que você pratica?

Eu entrei no GAMGE porque eu dançava no mulekiétu. Um dos alunos do GAMGE que me dava aula me convidou para entrar no GAMGE, mas na época os horários não batiam com o meu. Depois de algum tempo meus horários se encaixavam e me matriculei. Eu sou monitora de karatê, ou seja, ajudo o professor nas aulas de karatê e pratico hip hop, inclusive o coreógrafo é Samir, ele é um DJ muito conhecido na região, ele se tornou quase um pai para mim.

Depois que você entrou no GAMGE sua vida mudou?

Não tem como a vida de qualquer pessoa não mudar, pois lá eles te apóiam, te dão conselhos. No GAMGE existe a aula de crescimento pessoal, que serve para te auxiliar em tudo. O GAMGE se tornou muito especial para mim, consegui perder um pouco da minha timidez e hoje consigo me comunicar melhor. Se eu não estivesse no GAMGE eu poderia estar fazendo coisas erradas, mas estou exatamente lá fazendo o que eu gosto e aprendendo muito com eles. Além de que adquirimos responsabilidade com o que fazemos, chegando no horário dos ensaios e levando o nome da instituição para outros locais para que possamos trazer mais jovens e ajudá-los no que é preciso. O GAMGE passou a ser uma grande família para mim.

Licor de Cachoeira, patrimônio do sabor!

A TERCEIRA GERAÇÃO DO LICOR DE SEU ROQUE PINTO MANTÉM O PRESTÍGIO DA TRADICIONAL BEBIDA.

Dalila Brito

A heroica cidade de Cachoeira, situada no Recôncavo baiano, é famosa por seu valor histórico. Sua arquitetura colonial atrai turistas de diversas partes do mundo a uma visita por suas ruas, becos e vielas enladeiradas. Mas se engana quem pensa que o único atrativo da cidade está no que ela proporciona aos olhos.

Um dos maiores atrativos de Cachoeira está situado no antigo casarão reformado da rua Rodrigo Brandão, mais conhecida como rua da Gauchinha, com paredes rústicas preservadas, onde é produzida e comercializada grande parte da tão famosa e saborosa bebida, o licor de Roque Pinto.

Cláudio Pinto, sobrinho de seu Roque, trabalha no estabelecimento desde 1984 e conta que a tradicional fabricação de licor teve início com Francisco Pinto, fundador do negócio. Após o seu falecimento, seu filho Roque deu continuidade à produção que hoje é assumida por seu filho mais velho, Rose.

São fabricados mais de dez sabores de licor, entre eles: jenipapo, maracujá, cajá, ameixa, cupuaçu, amendoim, banana, açaí, pimenta, chocolate, gengibre, passas e hortelã, cada um com seus cuidados específicos.

Responsável pela produção desde a morte de seu pai, Rose Pinto afirma que o licor leva em média um ano para ficar pronto e que sabores como jenipapo ficam melhores com o passar do tempo. Diz também que o licor de cajá é o menos duradouro e depende da boa safra da fruta para uma produção satisfatória, e que depois de pronto o licor dura no máximo três meses.

Fama internacional

Hoje, o negócio administrado por seu Rose conta com a ajuda de diversos familiares que trabalham e possuem outras ocupações, mas que não abandonaram a tradição familiar, levada para os quatro cantos e ganhando fama internacional. Diferente do que acontecia há duas gerações, quando os primeiros produtores eram os únicos responsáveis pela produção e comercialização do produto.

Os licores são preparados com frutas, evitando o uso de essência, buscando sempre maior qualidade e durabilidade, uma vez que a essência evapora deixando a bebida sem gosto.  O processo de produção é muito simples: a única máquina utilizada é um liquidificador, sem a interferência de nenhuma outra máquina, pois, afirma seu Rose, “Meu pai sempre foi um homem muito conservador em relação ao preparo do licor e dizia que a única máquina necessária para o seu preparo são as mãos”.

O que começou com sabores mais tradicionais, como jenipapo, foi crescendo e, devido à procura dos clientes, passou-se a produzir outros sabores como o licor de cupuaçu, que é feito com fruta proveniente da região de Lençóis. O licor de açaí, diz Rose, “ficou saboroso, mas o seu armazenamento não é muito bom. O próprio açaí ainda vai nos dizer como ele quer ser trabalhado”. E, então, deixam de fabricá-lo.

O licor é vendido com preços que variam de seis a doze reais, levando junto o nome de um de seus primeiros fabricantes, mundo a fora, atendendo ao gosto de baianos, turistas e pessoas como Mário, membro da família Pinto, que deixou de trabalhar na produção e na comercialização de gerador da economia familiar para se dedicar à apreciação da bebida. Ele frequenta diariamente o estabelecimento para degustar o que costuma chamar de “remédio pro sangue”. Para ele estar do lado de fora do balcão e apreciar o sabor é bem melhor. “Não é à toa que passei pro lado de cá”.