Comércio em baixa

QUEDA DAS VENDAS EM GOVERNADOR MANGABEIRA TRAZ PREOCUPAÇÕES AOS COMERCIANTES.

Cristhiele Maiane Teles Conceição

Governador Mangabeira passa por um período sem crescimento no comércio local. Desde o mês de dezembro as reclamações dos comerciantes aumentavam a cada dia. “A cidade vive um péssimo momento. A queda está constante”, afirma a comerciante Nizete Fiúza.

O principal motivo dessa queda de consumo na cidade está ligado ao fato de que a maioria da população prefere consumir no comércio das cidades vizinhas, a exemplo de Cruz das almas, a maior delas, localizada a 12 km. È bastante desenvolvida, com um bom crescimento no comércio devido à chegada da UFRB. E já possui grandes redes de lojas no centro comercial.

Comerciantes e consumidores locais acreditam que os comerciantes de lojas não investem nas compras dos seus produtos. Eles compram, em quantidades maiores, roupas iguais, mas não investem em produtos da moda, o que resulta em pouca variedade. Neste caso, fazem com que os consumidores busquem a cidade vizinha, onde há mais diversidade de lojas e variedade dos produtos. Há ainda o fato de que, em Cruz das Almas, as lojas facilitam as compras, dividindo-as em parcelas maiores e sem juros.

Os comerciantes, tanto de lojas quanto dos salões de beleza e lojas de móveis, afirmam que eles se deslocam até outros estados para comprarem produtos do gosto de seus clientes, porém, a população mangabeirense não se satisfaz e não valoriza seus produtos buscando alternativas em outros lugares. As mulheres buscam comércios que possuem “status”, salões chiques, recorrendo a cabeleireiros com nomes conceituados.

“A população não resiste ao comércio vizinho. O impacto está sendo grande para nós comerciantes, mas dá para sobreviver. Pelo que vejo, é meio que impossível deixarem de ir para Cruz, mas quando eles precisam de algo imediato, procuram o comércio da cidade. Os homens não se importam com status, já as mulheres sim, são levadas por influências”, diz Mari Cerqueira.

Os comerciantes de supermercados concordam com essa avaliação. Dizem que, devido à abertura de muitos estabelecimentos comerciais na cidade, onde a demanda de habitantes é pouca para a logística existente, a falta de opção e variedade é constante. Cruz das Almas, com seu comércio ilimitado, possui redes de grandes lojas, tornando as opções variáveis, sendo assim, os consumidores saem em vantagem e a demanda consegue ser extensa. Os gerentes das lojas de materiais de construção não sentiram tanto quanto as outras o impacto da queda das vendas. Às vezes a redução é comum, mas de uns tempos para cá, não têm do que reclamar.

Segundo a expectativa dos comerciantes de Governador Mangabeira, a previsão mais evidente para esses meses é que as vendas apresentem a mesma situação vivida até o mês de abril. Ainda assim, acreditam que próximo ao mês de junho, a procura e a expectativa aumentam para terem um bom rendimento nas lojas.

Crônica: O Olhar de um recém-adotado

Laerte Santana

 Joguei o medo para bem longe e decidi que era hora de partir. Descobri que na nova cidade encontraria novos encantos e belezas. Cachoeira, com seu ar histórico de matriz colonial que só ela tem, de raízes afrodescendentes, atrai não só a mim, mas a todos que chegam. Avizinhando-me ao novo recanto pude ser recebido de braços abertos, e tal recepção me tirou a sensação de forasteiro. Aos afortunados que por aqui se encontram, tive a sorte por toda camaradagem que recebi.

A cidade é aquilo que vemos e ouvimos. Prédios antigos, o rio que a corta, e em todas as esquinas, casas e monumentos. A riqueza da época registra sua história e apesar da degradação de alguns edifícios, o autêntico estilo arquitetônico atrai os turistas. O destaque de uma arquitetura de Brasil império nomeia seu título. Cidade heróica e monumento nacional.

Além desse acervo arquitetônico, há ainda outros atrativos, que compõem o nosso dia-a-dia, onde tudo pode acontecer. Reuniões festivas. Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, tradição mantida por mulheres negras, descendentes de escravos. Festa D’Ajuda, de personagens simbólicos, entre mandus e pierrots, que desfilam ao som dos embalos. Da Festa de Yemanjá ao São João de Cachoeira e ao Samba de Dona Dalva, onde podemos internalizar toda cultura que neste local se encontra.

A cidade é assim, símbolo de resistência. Tombada pelo Instituto do Patrimônio e Histórico Artístico Nacional, ela já foi palco das lutas contra a canhoneira portuguesa. Terra de libertação, de nossa enfermeira: salve Ana Neri! A cultura de matriz africana e a religiosidade são outros pontos marcantes que diferenciam Cachoeira de outras cidades baianas. Aqui, Dom Pedro II já se fez presente. Como príncipe regente, trouxe a ponte metálica rodoferroviária que liga à cidade vizinha, São Félix.

Parte desse imenso recôncavo, representante da cultura da baianidade. Minha nova cidadezinha, de edifícios e sobrados antigos, das margens do Rio Paraguaçu. Na religiosidade, os rituais católicos se misturam com os preceitos do candomblé. Cidade dos orixás. De casarios que me lembram o Pelourinho, centro histórico de Salvador.

No município em que todos os anos o dia 25 de junho torna-se sede do governo da Bahia, a arte implementada do samba-de-roda tornou-se patrimônio imaterial brasileiro. 13 de março de 1837, ano de sua elevaçãoàcategoria de cidade. Heroica. Ao caminhar pelas suas entranhas descobri seus verdadeiros traços. Sua cultura resulta da mistura das heranças do índio, do branco europeu e dos negros africanos. Resistindo à modernidade e mantendo suas características originais, ela completa 177 anos.

Além de toda sua diversidade cultural, a todo amanhecer espero poder ver aquelas velhas casas de cores sorridentes, nos quais seus personagens aparecem saindo pela porta ou se debruçam no parapeito da janela para ver a vida passar. Agora é aqui que me encontro, entre ladeiras e paralelepípedos. Nessa pequena e relevante cidade, de paisagens que não dormem. Minha Cachoeira…

Opções de lazer em Cachoeira

O QUE A CIDADE HISTÓRICA OFERECE PARA OS MORADORES E TURISTAS.

Aline Lima

Cachoeira, cidade histórica e universitária, que abriga o Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), tem algumas opções de lazer para os estudantes e moradores. Essas opções atraem mais os jovens que gostam de se reunir aos finais de semana e feriados para se divertirem.

As opções de lazer em Cachoeira não são muito variadas. O lugar certo dos finais de semana é a Rua 25 de junho. Às vezes tem um som no espaço cultural Pouso da Palavra e pra variar um pouco, a população conta de vez em quando com festas, na maioria das vezes promovidas pelos estudantes da faculdade.

As estudantes Victória Lafite, 15 e Larissa Borba, 18, dizem que o passeio de barco pelo Rio  Paraguaçu é uma ótima opção para se divertir nos fins de semana, além do balneário que é uma espécie de clube aquático onde as famílias procuram se reunir. Além dessas, há a escolinha de futebol para as crianças.

“O balneário é um clube voltado para o lazer onde os frequentadores são moradores de Cachoeira e cidades da região, escolas e grupos de passeio. O espaço tem restaurantes com um cardápio variado e da região”, diz a estudante Jaqueline Santos, 19.

Outro evento que atrai o turismo regional é a Quarta dos Tambores, realizada todas as primeiras quartas-feiras de todo mês na Praça Teixeira de Freitas com objetivo valorizar as manifestações culturais de origens africanas também é uma opção para quem gosta de prestigiar a cultura local.

Camila Sousa, 22, reclama das poucas opções de lazer em Cachoeira. Para ela a falta de um teatro, de um cinema influi muito nas questões econômicas, pois, por ser uma cidade turística as autoridades deveriam investir mais nas opções de lazer.

“A falta de uma assistência a esse setor econômico prejudica o desenvolvimento da cidade, estacionando ou retrocedendo a economia da mesma”, afirma Camila.

É importante o investimento nas opções de lazer para atrair mais pessoas e assim fazer com que a economia cresça. O turismo é uma importante ferramenta para o desenvolvimento de Cachoeira. A atenção para essa área é essencial para o crescimento de uma cidade turística.

Cachoeira comemora o 13 de março

SITUADA ÀS MARGENS DO RIO PARAGUAÇU, A “CIDADE HEROICA” COMPLETA 177 ANOS DE SUA EMANCIPAÇÃO.

Mariana Andrade

Cachoeira elevou-se à categoria de cidade em 13 de março de 1837. Em 1971, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional e passou a ser considerada Monumento Nacional. Para a comemoração de seus 177 anos, a Prefeitura de Cachoeira, através da Secretaria de Cultura e Turismo, com o apoio do Governo do Estado e Secretaria de Comunicação do Estado, realizou uma grande festa, que teve início no dia 13 de março e se estendeu até o dia 16. A festa contou com atrações principais como a banda Psirico, Mariene de Castro, Seu Maxixe e Sine Calmom.

Por trazer atrações de interesse popular, a cidade nestes dias atrai pessoas de diversos lugares da região, que se deslocam de seus municípios para aproveitar a tradicional festa em comemoração à nova idade de Cachoeira. Partindo do pressuposto da grande demanda, a população aproveita para garantir lucros nos dias festivos. Montam barracas vendendo alimentos, bebidas e acessórios como pulseiras, colares, anéis, brincos, etc.

População em festa

Estudantes que residem na cidade preferem ficar para o final de semana de comemoração do aniversário de Cachoeira, em vez de irem para suas cidades. Muitos deles afirmam gostar de estar no município em tempo de festa, por trazer muita gente nova e, também, pelas atrações.

O cantor “Nenho” é residente de Cachoeira e participa da programação de bandas. No show, ele afirma gostar de morar e poder contribuir com a alegria do pessoal que vai prestigiar a festa.

Dona Matilde, 65, aposentada, mora em Cachoeira há 40 anos e diz que a comemoração de aniversário da cidade costumava ser com desfiles de fanfarras e filarmônicas, e hoje em dia é mais voltado para a espetacularização. Diz ter perdido o aspecto de cultura popular e está a cada ano mais engajada em trazer bandas de preferência do povo. Mas, afirma também gostar das mudanças por atrair os parentes distantes para visitá-la nesta época.

 Já Dalila Brito, 19, mora em Cachoeira há nove meses, desde que se matriculou no curso de Jornalismo na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Ela diz já ter participado de festas na cidade, mas é a primeira vez que presencia a comemoração da emancipação. Dalila acredita que as atrações satisfazem o gosto e cultura da população. Mostra-se empolgada com a programação da festa e diz que a localização do evento é de fácil acesso, mas acredita não comportar muito bem as pessoas presentes pelo porte das atrações e, principalmente, por atrair turistas.

Veja quais foram as atrações musicais:

Dia 13/03/2014 (quinta-feira)

17h – Orquestra Sinfônica do IAENE

18h – Samba de Roda Filhos do Caquende

20h – Samba de Roda de Dona Dalva

22h – Mariene de Castro

00h – Samba de Primeira

 

Dia 14/03/2014 (sexta-feira)

20h – Samba de Crioulo

22h – Partido Ponto Com

00h – Juninho Cachoeira

02h – Psirico

 

Dia 15/03/2014 (sábado)

20h – Sedução do Prazer

22h – Axé Mais

00h – Nenho

02 – Seu Maxixe

 

Dia 16/03/2014 (domingo)

Das 10 às 20h – Festival de Bandas e Fanfarra da Bahia

20h – Brotou Samba

22h – Sine Calmom

Cinquenta e dois anos de história

GOVERNADOR MANGABEIRA COMEMOROU 52 ANOS  DE EMANCIPAÇÃO POLÍTICA EM MARÇO DE 2014.

Vânia de Alcântara da Silva

A antiga vila de Cabeças, pertencente ao município de Muritiba, passou por grandes transformações políticas. Essas mudanças ocorreram devido à forte produção e exportação de tabaco, que despertou um grande interesse político na transformação de Cabeças em Governador Mangabeira, o que aconteceu no dia 14 de março de 1962.

Governador Mangabeira, cidadezinha pacata situada no Recôncavo baiano, tem pouco mais de 21 mil habitantes. No dia 14 março de 2014 completou 52 anos de emancipação política. Esta data foi celebrada por atos cívicos como hasteamento das bandeiras do município, da Bahia e do Brasil, e sessão solene na Câmara de Vereadores, onde algumas pessoas foram homenageadas com a entrega do título de cidadão mangabeirense. Luiz Ferreira Slujalkovsky foi um dos homenageados do dia pelos anos em que reside na cidade e contribuindo para o crescimento do município. Houve também missa festiva celebrada pelo padre da cidade.

Igreja da Matriz, situada na praça Castro Alves, um dos principais pontos de Governador Mangabeira.

 De vila a cidade

 O beneficiamento do tabaco transformou a Vila de Cabeças em um centro urbano no Recôncavo baiano. Em 1950, a população da vila era de 819 habitantes, residindo em mais de trezentos domicílios. Essa população sobrevivia principalmente do trabalho nos armazéns de fumo da família Fonseca, que eram os grandes exportadores de tabaco da região.

Em função do seu desenvolvimento econômico, em 1959, o Governo da Bahia decidiu pela coleta de impostos na própria vila, uma vez que a coletoria funcionava em Muritiba. Esse fato foi o passo decisivo para sua emancipação política, pois Cabeças conseguiu a sua autonomia fiscal. Com isso o grupo político local da época, formado por Antônio Pereira Mota Júnior, Malaquias Cerqueira Ferreira e Manoel Machado Pedreira, representantes da vila na câmara em Muritiba, em 1960, deu início a uma forte campanha para a emancipação política da Vila de Cabeças. A luta foi grande até que em agosto de 1961, em uma sessão extraordinária, foi aprovado o projeto de emancipação de autoria dos vereadores já citados.

O autor do projeto na Assembléia Legislativa foi o deputado Heraldo Guerra, que tinha seu reduto  eleitoral no Recôncavo, principalmente  na cidade Cruz das Almas, e visava com a emancipação da Vila de Cabeças aumentar seus votos nesta região.

Com a parte burocrática toda resolvida, o próximo passo seria a escolha do nome do mais novo município. Quatro nomes foram sugeridos: Três Palmeiras – como forma de homenagear as palmeiras imperiais que existiam em frente à Igreja Matriz; Betânia – em função da cidade bíblica localizada na Judéia, influência de alguns religiosos que participaram do movimento de emancipação; Altinópolis – em homenagem a João Altino, e Governador Mangabeira – homenagem em ao ex-governador da Bahia, Otávio Mangabeira. Os dois primeiros nomes não tiveram muita aceitação, o debate se concentrou entre Altinópolis e Governador Mangabeira, com forte preferência para este último, através da sugestão do representante comercial Enoque Nunes Fonseca.

Mesmo com o forte prestigio que possuía João Altino, a ideia da cidade ser homenageada com seu nome não ganhou espaço e foi facilmente vencida pela proposta de Governador Mangabeira. Sonhava-se que com essa denominação a nova cidade ganharia prestigio em nível estadual, uma vez que Otávio Mangabeira foi um político renomado no cenário nacional.

A escolha da data de 14 de março foi outro aspecto relevante. Resolveram homenagear o Poeta Castro Alves, que nasceu na cidade de Cabaceiras do Paraguaçu em 14 de março de 1847. A intenção era incorporar à nova cidade uma fisionomia de intelectualidade, pois Castro Alves até hoje é considerado o poeta da liberdade.

Em 7 de outubro de 1962, foram realizadas as primeiras eleições para prefeito e vereador do município de Governador Mangabeira. Foi uma disputa acirrada entre os grupos liderados por Agnaldo Viana e Malaquias Ferreira. Agnaldo Viana saiu vitorioso das eleições, tornando-se o primeiro prefeito de Governador Mangabeira.

Cachoeira ganhará centro de controle de zoonoses

PROJETO PODE ATENDER MUITOS ANIMAIS QUE, POR ENQUANTO, VIVEM NAS RUAS SEM RECEBER A ATENÇÃO DO PODER PÚBLICO.

Aline Portela

Apesar de possuir, de acordo com estatísticas oficiais, cinco mil animais vacinados, a cidade de Cachoeira apresenta um alto índice de cães e gatos abandonados, representando uma ameaça à saúde pública. Para conter esse problema, o Centro de Controle de Zoonoses está sendo construído e tem inauguração prevista para 2014. A informação é do coordenador da vigilância sanitária do município, Fernando Zeda.

É quase impossível a um cidadão sair nas ruas de Cachoeira sem encontrar algum animal abandonado, comprovando a falta de sensibilidade da população e a ausência de políticas públicas que os atendam e proporcionem uma vida melhor.

Quando questionado sobre a atual situação dos animais que vivem nas ruas e sobre políticas que os atendam, Fernando Zeda diz que seu atual projeto é a criação do Centro de Controle de Zoonoses em Formiga, zona rural de Cachoeira, com intuito de atender ao máximo possível no controle e abrigo desses animais.

Segundo ele,  não há lei que destine verba para esse setor, obrigando assim a limitar esse atendimento para poucos animais. Com pouca verba, não existe a condição de criação de campanhas ou de um hospital público veterinário.

Iniciativas insuficientes

Sobre a atenção da população da cidade com os animais abandonados, Jucilene Alves, 22, estudante da UFRB e residente em Cachoeira há mais de dois anos, diz que costuma alimentar os animais com alguns restos de comida e água. “Faço o que está ao meu alcance. Enquanto não tenho condições de ajudá-los de uma forma mais expansiva, ajudo minimamente com simples ações que fazem diferença na vida do animal de rua. Infelizmente, pouca gente tem essa iniciativa.”

Além da falta de iniciativa, boa parte da população não se mostra sensível em acolher cães e gatos de rua, preferindo recorrer à compra de animais, incentivando ainda mais a reprodução em cativeiros e não dando assistência àqueles que vivem ao relento.

clarissa

Clarissa e um dos seus gatos resgatados na rua

Clarissa Correa, 30, é historiadora e estudante de Museologia na UFRB. Ela acredita que o apoio aos animais abandonados deve partir tanto da população quanto da prefeitura. Clarissa atualmente possui dois gatos, ambos pegos na rua em péssimas condições: “Se posso, por que não salvar um animal de rua que sem a minha ajuda estaria destinado à morte ou no mínimo a viver em péssimas condições?”. Além disso, ela revela que a adoção não partiu dela, e sim dos próprios animais que a adotaram como dona. “Animais são como filhos”.

Contrastes sobre o rio

FLAGRANTES REVELAM COTIDIANO DE CONFLITOS, MEDO E TENSÃO, MAS TAMBÉM DE POESIA E DESCONTRAÇÃO NA PONTE DOM PEDRO II.

Fabio Rodrigues Filho

Ponte D  Pedro II  Década de 1940  (Arquivo Público de São Félix)

Ponte Dom Pedro II em 1940, ainda com soalho de pinho americano, que mais tarde seria substituído por placas de metal. (Foto: arquivo público de São Félix)

Às margens do Paraguaçu, antigo Rio Cachoeira, o amanhecer é lento e cauteloso: conversas poucas, altos “bom dia” e gaiolas nas janelas.  Sobre o rio, a Imperial Ponte Dom Pedro II, nome que foi dado há 129 anos, que liga a cidade de Cachoeira a São Félix, amanhece com suas teias molhadas da neblina, além de poucos e soníferos transeuntes que atravessam sem pressa.

Trata-se de uma ponte que foi construída para ser montada sobre o rio Nilo, no Egito, e trazida para o Brasil por Dom Pedro II em 1885. Essa foi por muito tempo a mais importante da América do Sul. Hoje, coleciona registros escritos, resíduos de lixo e histórias, tão ponte quanto o alicerce de ferro inglês que lhe sustenta.

Com o nascer do sol em Cachoeira, entram – pelos portões da ponte que não se fecham – uma cidade em transformação. O seu balançar à passagem dos caminhões, ônibus de turismo, carros apressados… Uma sinfonia de freios e de batidas de ferros enferrujados. Porém, quem é mesmo o regente?

O guarda de trânsito Alberto Costa Braga, conhecido como Cravinho, conta que ao longo dos vinte anos de trabalho na ponte já se acostumou com a falta de respeito. “Uns motoristas xingam a gente, outros são educados. Os que são de fora respeitam mais, o povo de fora obedece as regras”, conta. A guarda Joelma Souza, que trabalha na entrada da ponte por Cachoeira, concorda com o colega e diz que “as pessoas não respeitam a comunicação, não têm parceria com a gente. Muitos carros invadem mesmo”, exclama. O horário de trabalho dos guardas é das 6 às 19 horas, exceto em dia de festa quando ficam 24 horas, e, sem guarda pela noite, o jeito é contar com o bom senso dos motoristas e a atenção dos pedestres.

Insatisfação popular

Sem o sol e sem guardas, as reclamações são muitas. Recentemente um portal de notícias da região divulgou o relato de um motorista que passava pela ponte. “Um absurdo. Geralmente o movimento é bastante intenso nos finais de semana, principalmente à noite. Seria interessante que os responsáveis pela organização do trânsito na ponte revissem os horários de trabalho dos guardas. Durante o dia melhorou bastante, mas de noite e nos finais de semana sempre tem uma confusão como essa [impasse entre um ônibus e um carro, que entraram na ponte em sentidos contrários]. Tudo bem que são casos isolados, mas os responsáveis podem estudar uma maneira de monitorar e controlar isso.  Infelizmente as pessoas não sabem esperar e acaba acontecendo isso.”, relatou um cidadão identificado como Augusto Lopes através de uma rede social.

Foto Cadu

No domingo, 26 de janeiro, o tráfego ficou parado por cerca de 20 minutos devido ao encontro, em sentidos contrários, de um ônibus intermunicipal e uma fila de carros de passeio (Foto: Cadu Morais)

Na internet,  ainda se pode encontrar postagens de insatisfação seguidas de comentários indignados com a situação, além de propostas para resolver o impasse, que vai de aumento do horário do expediente dos guardas  até sinaleira pra organizar o tráfego.  A empresa responsável pelo trem esclarece que um semáforo está sendo instalado, mas seu funcionamento é destinado apenas à passagem do trem.

Para o secretário de cultura do município de Cachoeira José Luís, a responsabilidade pela segurança da ponte não é da prefeitura, mas sim da União.  Ele explica que as prefeituras, junto ao IPHAN e a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), fomentaram a iluminação da ponte recentemente, mas não tem como eles evocarem essa responsabilidade.

Em paralelo à correria rotineira, vê-se pescadores trabalhando ou até mesmo se distraindo ao longo do 365 metros de ponte, a pesca do gereré enfeita também a ponte com suas cordas coloridas jogadas no rio. O peixe mais comum no Paraguaçu é o robalo, comum e difícil de fisgar. Quando cheguei pra conversar com o pescador Manoel Souza, 42, conhecido como “Mistério”, ele já tinha pescado quatro. O pescador diz que “o bom é que você não sabe o que vai pescar… Tem dias que vem tranquilo [o peixe]”. Esse mistério das águas fascina seu Manoel que pesca há 30 anos. “Pego pra comer e distribuir entre os amigos. Pescar na ponte é bom que distrai vendo as pessoas passar”, diz. Ainda sobre sua relação com a ponte, ele conta que é mais tranquilo pescar ao dia por conta da violência durante a noite.

Violência que vem não só impedindo os pescadores de pescar, mas deixando as pessoas com receio de atravessar a ponte. Quem volta do trabalho, correndo pelo cansaço do dia e pelo medo, costuma atravessar a ponte em grupos, ou então em passos rápidos.

Os meninos que pulam de cima e nadam no rio, à sombra da ponte que cai sobre as águas, os canoeiros que atravessam por baixo e também quem anda por ela com medo da violência realiza um movimento intenso preenchendo a ponte de histórias, memórias e imagens que contam sobre o recôncavo e seu povo. Seja lá como for a ponte tornou-se resistência cultural e se amalgamou à paisagem da serra e das casas antigas.

Comércio atrai consumidores

PERÍODOS DE FESTAS PROPICIAM O CRESCIMENTO DE ATÉ 70% DAS VENDAS EM SANTO ANTÔNIO DE JESUS.

Uilson Campos

Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, é conhecido pelo forte desenvolvimento do seu comércio. Consumidores de toda a região visitam a cidade em busca das ofertas e dos melhores preços no município, que conta com aproximadamente duas mil empresas atuando em serviços comerciais.

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Épocas festivas deixam shopping da cidade repleto de consumidores.

A época de fim de ano é quando o movimento das vendas mais se evidencia. E o que não falta é atrativo para conquistar os compradores. Além de sorteios de brindes promovidos pelas lojas de forma independente, as entidades empresariais, em conjunto, fazem uma campanha duas vezes ao ano (durante as festas juninas e de fim de ano). Em 2013, essa promoção ofereceu prêmios que chegavam a mais de 100 mil reais. A representante da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) e da Associação Comercial e Empresarial (ACESAJ), Aloma Brito, diz que na última campanha foram produzidos 1.750.000 cupons inicialmente. “Tivemos que produzir mais, porque as empresas pediram mais cupons. Então, foram distribuídos 1.950.000. Isso indica que as empresas estão vendendo”, diz Aloma. Ao final da última promoção, em 3 de janeiro deste ano, cerca de dois milhões de cupons haviam sido distribuídos.

Comerciantes e Comerciários

Os ramos de confecções e calçados são dos que mais se destacam. Para David Cefas, gerente de uma loja de sapatos no centro da cidade, o mês de dezembro é o mais rentável para as vendas. “Nosso crescimento no mês de dezembro em relação aos meses anteriores é em torno de 70%. É o melhor período de vendas da loja”, declarou. O comerciante ainda afirma que o fim de ano é um período que também favorece a criação de empregos provisórios: “Sobre a nossa média de funcionários, a gente acresce em torno de 30% de vendedores”. Segundo a CDL, muitos desses trabalhadores temporários acabam conquistando uma vaga definitiva nas empresas.

Mas nem todos saem satisfeitos com o grande movimento das vendas. Todo ano, o sindicato dos trabalhadores do comércio e o sindicato patronal dos comerciantes entram em acordo para estabelecer um horário especial de funcionamento das lojas no período das festas. A representante dos comerciários na cidade, Aline Patrícia, declarou que a meia hora acrescentada no horário de encerramento do comércio no último fim de ano demonstrou-se desnecessária. “Escutamos muita reclamação, as ruas estavam esvaziadas às 19 horas. Além disso, o funcionário ficou impossibilitado de comprar”.

Variedade

Não é apenas o preço dos produtos que atrai os consumidores à Santo Antônio de Jesus. A cidade que divulga o slogan registrado de “comércio mais barato da Bahia”, é procurada ainda pela variada oferta de produtos. “Nosso comércio, que tem o título de mais barato, também é diversificado. Raramente as pessoas saem daqui para comprar em outro lugar”, diz Aloma Brito. Para ela, Santo Antônio consolidou-se como polo econômico na região e os resultados das premiações todos os anos são a prova disso. Nas campanhas promocionais passadas, 80% dos prêmios saíram para pessoas de cidades vizinhas.

É essa oferta abrangente que faz com que moradores de todo o Recôncavo e Vale do Jiquiriçá procurem o comércio santoantoniense. Conforme dados da pesquisa sobre o perfil e os hábitos do consumidor do comércio de Santo Antônio de Jesus, realizada pelo SEBRAE em 2012, os compradores têm procedência de mais de 20 municípios num raio de aproximadamente 100 km.

É o caso de Joice Morais, moradora de Varzedo. “Eu faço compras em Santo Antônio por causa da variedade dos produtos. Aqui tem tudo que a gente precisa. Ás vezes a gente vem para o médico, fazer um exame, e aproveita pra fazer as compras”. Mas, como toda cliente, em qualquer cidade brasileira, Joice sempre acha que o preço pode ser melhor: “O bom seria se fosse ainda mais barato”, confessa a consumidora.

Feira livre movimenta o comércio de Cachoeira

INTERAÇÕES ENTRE CULTURA E ECONOMIA MARCAM A HISTÓRIA DA CIDADE E CONTRIBUEM PARA O SUSTENTO DE MUITOS MORADORES.

Aline Lima

As feiras livres são eventos públicos em dias predeterminados nos quais as pessoas expõem e vendem suas mercadorias. Espaços de integração e variedade, tornam-se parte da história e da cultura das cidades onde são realizadas.

Em Cachoeira não é diferente. A movimentação de pessoas, as negociações e a exposição dos produtos tornam-se quase uma manifestação artística popular. A variedade e o colorido das barracas é um importante atrativo para as pessoas que vão ao lugar em busca dos melhores artigos. Geralmente a tradição passa de pai para filho; gerações da mesma família aprendem a trabalhar no negócio. Cada barraca é como uma empresa em que uns lucram mais que outros.

Dona Nina, feirante de 61 anos, trabalha desde os oito. Ela acredita que a dificuldade maior de trabalhar na feira é a falta de dinheiro para investir. Conta que a barraca onde trabalha é alugada e além disso, precisa pagar para guardar suas mercadorias. Sexta-feira é o dia de maior movimento, mas ainda assim o lucro não é grande, sendo suficiente apenas para pagar as dívidas. Um problema que ela destaca são os altos preços das mercadorias. Como revendedora, ela compra os produtos por preços elevados e é obrigada a vender por um valor maior ainda.

Viviane Araújo, 20, tem uma barraca na feira para vender roupas. Há dois anos ela trabalha comercializando peças que compra em Pernambuco. Ela diz que a barraca é própria e aluga o espaço por R$ 4,00. Trabalha de segunda a sábado, e sua renda familiar é obtida totalmente da venda de roupas na feira. Seu marido viaja todo mês para

Jeferson, mais conhecido como Bel, vende queijos e doces. Trabalhar na feira é uma tradição. Sua família tem a barraca desde 1910, começando com sua avó, passando para seu tio e posteriormente para ele. Bel trabalha de segunda a domingo e diz que a principal dificuldade é a pequena de circulação de capital. Ele acredita que a falta de indústrias na cidade e, consequentemente a falta de empregos, influencia a pouca movimentação do dinheiro. Ressalta também que a maioria dos clientes são turistas e o lucro é maior em feriados e festas. Além do pouco lucro, Bel tem que pagar semanalmente o aluguel do espaço e anualmente o alvará de licença da prefeitura.

A cultura e a tradição são passadas para as gerações seguintes das famílias feirantes, mesmo enfrentando dificuldades econômicas por falta de incentivo financeiro.  A variedade de produtos definem sua identidade e mostram um pouco a realidade da feira livre de Cachoeira.

Recuperação de mercado gera expectativas

COMERCIANTES DO MERCADO DE ARTE POPULAR DE FEIRA DE SANTANA AGUARDAM A REFORMA PROMETIDA PELA PREFEITURA.

Alan Rocha Suzarte

O prédio construído pelo Coronel Bernardino Bahia, entre 1914 e 1915, para ser um mercado municipal, com uma arquitetura neoclássica, localizado no centro de Feira de Santana, até meados do século 20 abrigava o comércio de secos e molhados (carnes, legumes e frutas) com a realização de uma grande feira semanal que daria origem ao nome da cidade.

Em 1976, quando o município era governado pelo prefeito José Falcão da Silva, foi inaugurado o centro de abastecimento que viria a ser o grande centro de comercialização de todos os produtos da região, constituindo-se na maior feira livre do Nordeste. Com isso, a feira-livre do centro da cidade desapareceu e o Mercado Municipal foi fechado.

Somente no ano de 1980, no mandato do prefeito do PMDB Colbert Martins da Silva, o Mercado Municipal sofreu uma reforma mantendo a sua fachada arquitetônica. A partir daí foi transformado em um espaço comercial, de cultura popular, de culinária colorida e saborosa onde se encontram esculturas, bijuterias, bordados, vestuário, artesanato rico, comidas típicas, elementos da cultura sertaneja. O espaço reúne pontos de vendas dos quitutes regionais, exposições dos produtos artísticos, espetáculos folclóricos, teatrais e musicais e várias manifestações culturais com apresentação de cordelistas e repentistas, passando então a chamar-se Mercado de Arte Popular.

Decadência e recuperação

O prédio foi tombado em 1992 pelo IPAC – Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e mais uma vez foi reformado, agora pelo Governo do Estado, na administração do governador César Borges (PFL). As obras ali realizadas mudaram as características do seu interior, inclusive com a alteração do telhado. Foram criadas novas estruturas para o comércio dos artesãos, inclusive um palco de entretenimento, onde os artistas apresentam os seus trabalhos na música, na poesia e nas artes dramáticas.

Com o passar dos anos o MAP entrou em decadência, ao ponto de ficar literalmente “caindo aos pedaços”. Agora, finalmente, foi anunciada a terceira reforma, o que está gerando grande expectativa entre comerciantes e usuários do local.

O comerciante feirense Max Weber, 29, que trabalha há seis anos no MAP, diz que está muito animado em relação á reforma. Mas, enquanto ela não acontece, continua enfrentando problemas sérios como o telhado que ameaça cair. Reclama também da chuva, que em apenas dez minutos faz um estrago enorme deixando tudo alagado e da falta de segurança que muitas vezes espanta os clientes, pois não tem guarda municipal para a devida proteção do local. Ele sofre porque as pessoas tem uma péssima visão do local achando que o mercado está totalmente desorganizado, e também devido às altas temperaturas provocadas pela cobertura de zinco durante o verão, causando calor e desconforto no ambiente.

Segundo Weber, em relação á reforma, ele não a vê mais como um problema, pois está ciente de que tem o prazo para conclusão de 180 dias e que a mesma será iniciada em janeiro, conforme as informações que foram passadas pela Secretaria de Comunicação da Prefeitura (Secom).

Em relação ao remanejamento para um imóvel na Avenida Olímpio Vital, afirma ter sido a melhor alternativa. Segundo ele, foram dadas várias opções para votação entre os comerciantes, e a maioria escolheu esse local. “É um espaço bem localizado, entre o Mercado de Arte e o Centro de Abastecimento, um local seguro, com boa ventilação, onde todos estarão bem acomodados”, ressaltou.

O MAP é hoje um espaço amplo para os visitantes que desejam conhecer a terra, um patrimônio muito importante para o setor do turismo em Feira de Santana que exerce um papel fundamental no desenvolvimento econômico, social e cultural da cidade.