Um espetáculo de lembranças

UM PASSEIO PELA HISTÓRIA DO CINETEATRO CACHOEIRA NA MEMÓRIA DO ANTIGO PROJETISTA, ADILSON MACHADO.

Fabio Rodrigues Filho

Faz quase 25 anos que não se assiste e nem se apresenta uma peça, nem um filme no Cineteatro Cachoeira. Prédio imponente, já reformado, de portas e janelas envernizadas e fachada gelo, que ao olho desatento, não denuncia a imensidão trancada nas portas que lhe dão acesso.

Das pessoas que eu conversei sobre o cineteatro, Adilson Machado é o que guarda mais lembranças e emoção ao pensar no período áureo de movimentação no tablado e na tela. Prestes a completar 85 anos, sua vida se confunde com a história do local. Não só por se tratar de um grande amante do cinema, mas também por contribuir muito com o Cineteatro Cachoeira, acionando o olho do projetor ou se emocionando ao assistir um filme lá.

Com vinte anos, em Itajuípe, na região cacaueira baiana, seu Adilson já tinha sido pedreiro, pintor, alfaiate, balconista e, sobretudo, assíduo espectador do cinema da cidade. Quando soube da oportunidade de trocar seu salário de 420 cruzeiros por 600 cruzeiros indo trabalhar no cinema, não pensou demais. Largou o emprego de balconista e foi num domingo aprender sobre projetor de filmes.  Trabalhou por outras cidades da Bahia onde a empresa estava abrindo cinemas, como Vitória da Cachoeira, aprendeu idiomas e chegou em Cachoeira, em 1952, quando a empresa Marom arrenda o até então Cine-Teatro Cachoeira, mudando o nome para Cine-Teatro Glória.

Seu Adilson tornou-se operador chefe, projetava os filmes – o cineteatro possuía dois projetores, o que possibilitava projetá-los sem intervalo e um título de moderno –, produzia os cartazes de divulgação com destaque para os filmes coloridos, gravava as chamadas das exibições e também morava no cinema. Guardava em um dos camarins suas malas, fotos e tinha uma cama. Foi assim que o projetista tornou-se morador cachoeirano.

O até então Cine Real. Nessa época, o primeiro andar possuía marquise ainda. Foi na varanda central que Thelmo, um dos diretores caiu e morreu na porta do cineteatro. (Foto: Arquivo pessoal de Raimundo Carvalho)

“Eu trabalhava em Conquista, vim para reinaugurar [o cinema] com a Marom, que  arrendou e fez a reforma. [Tinha] Tela maior [CinemaScope], dois projetores, projeção sem interrupção. Com um certo tempo, ele se chateou com o cinema e vendeu ao próprio gerente. Passou a ser o Cine Real. Depois disso um rapaz de Valença quis arrendar o cinema, mudando pra Cine Simões. Com um certo período, caiu a renda, entregou à empresa [Marom], entrando Thelmo”. Foi quando recebeu o nome de Cine Teatro Cachoeirano, acrescenta Adilson lembrando que o cinema foi administrado pela família Dayúbe com o nome de Cine Astro. Voltaria ainda para as mãos de Thelmo e depois de Luís, atual diretor da Santa Casa de Misericórdia. Resumindo a longa história de arrendamentos e de muitos diretores do cineteatro.

As apresentações no cinema eram sempre eventos na cidade, todos se encontravam, vinham de fora e havia uma emoção coletiva ao partilhar do momento mágico de brotar da tela cor, som e lugares que não se imaginaria. “Iam duas filas até de junto do brega, duas filas pra comprar ingresso. O salão era 480 poltronas. No bar Night on Day todo mundo ia pegar cadeira emprestada pra não ficar em pé. Tinha sessão que chegava a 700 pessoas. Quando precisava passar dava um trabalho desgramado, tomavam todo corredor. Todos filmes bons superlotavam.” Coincidiu que naquele tempo, Cachoeira não era ligada a Salvador pela estrada de rodagem, o transporte era trem e navio, o pessoal ficava aqui. O pessoal do sertão vinha pegar o navio aqui. Os que não podiam pagar hotel, ficavam na praça, aí compravam ingresso pra dormir no cinema. Seu Adilson era também o responsável por acordar os desabrigados e por pra fora do cineteatro, muito embora ele entendesse bem do prazer de morar no cinema.

Ruínas: a situação do cineteatro antes da revitalização. (Foto de divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo. Fotógrafo: André Souza)

A realidade das enchentes que assolavam Cachoeira não poupou o cineteatro. Em 1960 uma grande enchente viria prejudicar o cinema todo. Os funcionários entraram de canoa pelo primeiro andar do cinema e salvaram os equipamentos mais importantes.

“As enchentes vinham até a marquise, a de 60, foi 10 cm dentro da cabine. 25 de junho passava um filme de toda história de Cachoeira, tinha de passar esse filme como lembrança, a gente esqueceu de baixo da cabine,  com os jornais, aí perdeu a imagem toda na enchente. A água veio 10 cm dentro da cabine, na enchente de 60. No fundo da camarim, tinha minha cama, minha coleção de revista, fotos…”. No dia da enchente, Seu Adilson queria ainda dormir em seu quarto, mas foi impedindo pelos amigos. Se tivesse dormido, talvez não tivéssemos o cineteatro tão vivo hoje.

Apesar das dificuldades e surpresas como um cinema afogado, trabalhar no cinema aumentou a paixão de seu Adilson por filmes. Dentre os vários filmes exaustivamente assistidos, ele escolhe como preferidos:“Ave do paraíso, que espetáculo! Duas sessões… filme que deixou saudade mesmo. Nunca mais esse filme voltou, ninguém sabe da cópia desse filme. Filme bom, colorido… 7 noivas para 7 irmãos, o filme que mais passou…”. Ao se tratar dos shows, Adilson destaca: “Vicente Celestino que foi um espetáculo, com aquela voz maravilhosa. Orlando Silva, o cantor de minha predileção”, os artistas que vinham se apresentar no cineteatro ficavam hospedados logo em frente no Hotel Colombo, a praça inteira se organizava e vivia em função das apresentações.

Uma curiosidade sobre as exibições, é que enquanto passavam os filmes de bang bang, de tanto ver, Adilson ficava na cabine imitando os personagens, até alguém se incomodar com a zoada e cortar a cena. Após o sucesso seguido do desprezo aos filmes de bang bang, o cineteatro passou a exibir as pornôs chanchadas. “Eu propus a sessão coruja. Após as projeções de filme normal, fazia a sessão coruja. Só para homem, com exceção para as meninas do brega. Os filmes vinham da Holanda em 8 mm, as pessoas depois de um tempo não aguentavam mais o repeteco”, o cineteatro começava a entrar em decadência de público. Nesse mesmo período, uma companhia teatral que apresentava sexo explícito no palco foi trazida para levantar maior público. “Hoje o cineteatro apresenta sexo ao vivo só para homens”, anunciava seu Adilson pelas ruas da cidade no intuito de levantar o cineteatro. De operador para plateia, Adilson ficou logo na frente na apresentação. O cenário: três camas e uma mulher em cada uma delas, enquanto os homens ficavam atrás da tela se preparando. “Um broxou na hora, depois voltou e fez o serviço”, conta em voz baixa e rindo da cena.

Teatro revitalizado

Fachada reformada do Cineteatro Cachoeira. O local segue fechado para visitações.  (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

Fachada reformada do Cineteatro Cachoeira. O local segue fechado para visitações. (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

“Ficou bacana para o que era o prédio. Hoje tem um cinema moderno, achei modificações no salão, o paredão da cabine. Mudança na escadaria e na sala de projeção. Houve uma reforma muito grande! Eu tô sentindo que não demora muito pra abrir.” O antigo funcionário não esconde a emoção de poder ver o cinema funcionando de novo, e com filmes e peças produzidas aqui. Ele considera que a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) deve ficar com uma parte do cineteatro para fazer suas produções, amostras e eventos em geral. A decisão atual é que a Prefeitura da Cachoeira irá gerir o cineteatro, por um entendimento do Iphan junto à própria prefeitura.

“Antes era uma alegria, vinha esse pessoal todo assistir as matinês, quando quebrava uma parte [do filme] havia muita zoada. Era bacana!”, completa destacando a importância de ver de novo as crianças no teatro, lembrando da festa que era quando as crianças vinham do bairro do Caquende [bairro onde começou Cachoeira] para as matinês, todas juntas correndo para a Praça Teixeira de Freitas.

 Na sala principal, em razão das plataformas retráteis, as várias configurações da plateia proporcionam possibilidades cênicas diversas, como teatro de arena, semi arena ou italiano. O projeto arquitetônico é de Alexandre Prisco, com a colaboração de Vinicius Bustani e André Souza. Coordenação técnica local do Monumenta: Gabriel Gonsalves e Eduardo Fucs. (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

Na sala principal, em razão das plataformas retráteis, as várias configurações da plateia proporcionam possibilidades cênicas diversas, como teatro de arena, semi arena ou italiano. O projeto arquitetônico é de Alexandre Prisco, com a colaboração de Vinicius Bustani e André Souza. Coordenação técnica local do Monumenta: Gabriel Gonsalves e Eduardo Fucs. (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

Seu Adilson trabalhou de 1952 a 1992 no Cineteatro Cachoeira. Hoje está aposentado, continua vivendo em Cachoeira, construiu família aqui, compra pão todos os dias no mesmo horário, segue com sua voz de locutor e costuma ficar na porta de sua casa com um largo sorriso para os passantes ao cair do sol. Leva consigo a memória viva do Cineteatro Cachoeira e assim como toda a população cachoeirana aguarda a abertura da nova e velha casa de espetáculo mais importante do Recôncavo Baiano.

Que as portas do cineteatro estejam abertas para muitas outras histórias como essa, que daria um ótimo filme ou uma excelente peça.

Histórico do Cineteatro

  • Em 12 de abril de 1923, é inaugurado o Cineteatro Cachoeira, de propriedade do senhor Cândido Vacarezza.
  • A empresa Marom, arrenda o teatro em 1952 e o transforma em Cineteatro Glória.
  • Nos anos 50, grandes artistas da música brasileira,como Luiz Gonzaga, Vicente Celestino, Ângela Maria, Orlando Moraes, Sílvio Caldas, se apresentam no cinema com grande lotação.
  • O filme O mágico e o delegado é filmado dentro do cinema. No elenco estava a atriz Tânia Alves.
  • Depois de vinte anos fechado, já em ruínas, sem a fachada principal, o prédio foi comprado em 2009 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por cerca de R$ 179 mil. A reforma foi uma contrapartida do governo do Estado da Bahia e o Programa Monumenta, também do Iphan.
  • A reabertura do teatro foi adiada duas vezes. Segundo o secretário da Cultura da Cachoeira, José Luís. Já foi comprado um transformador especial pro ar-condicionado, que estava dando problemas de funcionamento. Com a chegada do transformador, haverá um teste geral de todos os equipamentos e será marcada uma data oficial, sem pressa.
  • A Prefeitura Municipal da Cachoeira assumirá a gerência do teatro, ainda segundo o secretário de cultura, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) terá seu espaço também para eventos e realizações. O secretário não definiu ainda como será, mas pensa em um dia da semana o Cineteatro ficar à disposição da universidade.
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