Dois olhares sobre “Edifício Master”, obra-prima de Eduardo Coutinho

PASSADOS QUE NÃO PASSAM DÃO O CLIMA CLAUSTROFÓBICO DO ‘EDIFÍCIO MASTER’

Uilson Campos

Uma professora de inglês paranóica, uma garota de programa dissimulada, uma mal sucedida cantora de bailes. O que essas pessoas teriam em comum? O fato de dividirem os compartimentos de um mesmo prédio. Vidas que, embora separadas por paredes, em muitos aspectos se somaram e deram a identidade do emblemático Edifício Master, prédio carregado por um passado que parece não passar.

Elas são apenas algumas dos vários personagens reais que estrelam, ainda que como estrelas decadentes, o documentário dirigido por Eduardo Coutinho que leva o nome do prédio que abriga famílias de classe média/baixa situado em Copacabana, contrastando com a vida elitista de um dos mais nobres bairros cariocas. Em Edifício Master, o cineasta passa uma semana habitando no local e gravando depoimentos dos mais diferentes moradores.

O Master, que já serviu como antro de prostituição, ambiente frequentado por usuários de drogas e onde ocorreram suicídios e assassinatos, é representado pelos habitantes de forma que seus testemunhos pessoais se misturam com a história do edifício.

Os depoimentos dos moradores são conduzidos pelo cineasta em entrevistas. Cenas dos corredores sombrios, silenciosos e pouco movimentados do prédio servem de passagem entre um personagem e outro. Embora possuam vidas muito parecidas, o documentário mostra que os habitantes do Master têm pouco contato entre si, caracterizando um clima de solidão que é bastante marcado em suas falas.

Um tipo bastante constante no documentário é o do idoso que mora sozinho, embora tenha filhos ou outros parentes, sendo esquecido, distanciado ou abandonado pela família. Casos como o da ex-costureira da elite carioca que, após ficar viúva, busca um novo companheiro; o de uma cantora que disfarça a solidão ouvindo música em uma vitrola antiga; ou o de um homem divorciado e que não encontra mais emprego, por conta da idade avançada. Nesses momentos, prevalece o tom de nostalgia que parece impregnar as paredes do edifício.

O documentário também evidencia a diversidade presente no local, onde vivem pessoas de diferentes culturas, vindas de diversas partes do Brasil e até de outros países. Moradores inusitados, como os jovens integrantes de uma banda que desejam fazer sucesso com a música, a estudante universitária que sonha em seguir uma profissão e a jovem que faz planos de morar nos EUA com o namorado americano destoam do perfil de ‘fim de carreira’ dos outros habitantes.

Com cenas que reforçam o aspecto claustrofóbico do ambiente, onde cada um vive suas memórias de forma particular, o documentário consegue fazer da câmera aquilo que uma das moradoras diz acontecer com os vãos das janelas de seu apartamento, em que “a vida das outras pessoas entram pelos basculantes”.


UM OUTRO MAR EM COPACABANA

Nicolle Cajado

Copacabana, Rio de Janeiro. Famoso e “nobre” bairro da ‘Cidade Maravilhosa’. A inspiração de tantas canções abriga também ‘seres comuns’. Uma parte no convencional Edifício Master, que possuiu 200 apartamentos e cerca de 500 moradores. Edifício que dá nome ao documentário de Eduardo Coutinho, onde ele mostrou a semelhança sentimental na individualidade de moradores que aparentemente não tem relação alguma além da vizinhança silenciosa.

Os corredores deprimidos do Master carregam uma história com má reputação. Antes o edifício era um ambiente onde a vida boêmia era constante. Festas mal vistas, prostituição e crimes não eram surpresas no passado do Master. Ao mesmo tempo em que a história do prédio é contada pelos antigos e recentes moradores, eles colocam-se nela. Confundindo o caráter histórico e individual, e depois transferindo o filme para depoimentos pessoais.

A equipe entrando e falando com os moradores, os cômodos dos apartamentos mostrados calmamente, as perguntas do diretor que podemos ouvir, são coisas aparentemente simples, mas que revelam a índole realista da obra. A cada depoimento, percebemos que por trás das angústias ou contentamentos que são contados, há um sentimento em comum entre os moradores. É tudo muito íntimo e pessoal, mas também há uma sensibilidade habitual nas histórias.

Apesar dos contextos, das idades, das profissões, da relação de cada morador ser diferente, todos acabam construindo uma alusão à relação do ser humano com o mundo e nos fazendo refletir sobre tal relação. Os habitantes do Edifício Master mostram que independente de onde moramos, estamos dentro de um mar de melancolia onde nossas angústias e frustrações estão mergulhadas dentro da chamada privacidade.

O filme ganhou o Prêmio Margarida de Prata e o troféu APCA na categoria de melhor documentário, além de ter vencido o Festival de Gramado (2002) nas categorias de melhor documentário, melhor roteiro original e melhor diretor. A simplicidade e naturalidade com que as entrevistas foram desenvolvidas garantem o intimismo que criamos com cada morador no decorrer do filme. Isso coloca em prova qual é o verdadeiro papel da privacidade num prédio onde os moradores não falam com seus vizinhos, mas contam sua história para um desconhecido.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s