Por trás da objetiva: o subjetivo Rodrigo Wanderley

Aline Portela

Autorretrato

Autorretrato

Arteiro. Essa foi a resposta de Rodrigo Fiusa Wanderley quando o perguntei como ele se definia. É jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), porém, apesar do diploma, vive da fotografia. Seu gosto pela rua, principalmente no que se refere à vida pacata do interior baiano, vem da criação: nasceu em Santo Antônio de Jesus e viveu quase toda sua infância por lá. Experimenta, vive e constrói seus próprios mundos inventados. Tem fascínio pelo mistério e através da fotografia o explora, conta e inventa estórias.

Ainda na UFBA, iniciou-se como fotógrafo no LabFoto, onde passou dois anos e meio trabalhando e estudando. Em 2011, participou da fundação Olhos de Rua, projeto que leva projeções de imagens para espaços públicos de Salvador, e foi assim que começou a tomar gosto pelas exibições ao ar livre.

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Quando fala sobre seu trabalho, qualquer um sente o gosto que ele tem pelo que faz e a magia que consegue sentir e transmitir através da poesia que sempre (ou quase sempre) acompanha suas fotos. Essa característica vem de quem ele sempre cita:o poeta brasileiro Manoel de Barros. Sem dar muita atenção à poesia rebuscada, Rodrigo gosta de versos acessíveis, da poesia que reflete o mundo de forma simples, delicada e sensível. Adora inventar palavras. Dessa forma, são feitos os seus Causos Fotográficos, trabalho exposto através do seu “Varal Itinerante” e suas caixinhas de madeira recheadas de fotografia e poesia.

Ao sair para acompanhá-lo fotografando na feira livre da cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano, é fácil notar o quanto ele leva jeito para ouvir e lidar com as pessoas, para depois retratá-las do seu melhor jeito: através de poesias fotografadas. Conta que através da fotografia, encontrou a melhor maneira de conhecer e agregar pessoas. Posiciona-se, enquadra e fotografa coisas que passam despercebidas no dia-a-dia de cada um.

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É criador do projeto “Varal Itinerante”, porém, ele reforça quando comenta sobre isso: “Esse é um trabalho coletivo, sem as pessoas que colam na corda, nada aconteceria. Eu só planto a semente”. Através da criação desse projeto, conta com entusiasmo que o “Varal das Artes SAJ”, que ajudou a criar, segue firme. Seu projeto já passou por cidades baianas como Salvador, Cachoeira, Santo Antônio de Jesus, e as vilas de Garapuá, Igatu e do Capão. Na cidade de Cachoeira, expôs seu varal durante Bienal do Recôncavo em 2012 – na qual participou com seus Retratos Imaginados – e durante a Feira Literária Internacional de Cachoeira (Flica), em 2013. Além disso, seu projeto foi parar em São Paulo, nas ruas da USP e nos jardins do Parque Ibirapuera.

Além de Manoel de Barros, Rodrigo tem como inspiração o trabalho de Mario Quintana, Mia Couto e Guimarães Rosa. Todos artistas que tratam o simples e o cotidiano, assuntos preferidos dele. Ele conta que redescobriu a poesia tarde: “A literatura clássica e cheia de métricas, apresentada no tempo da escola, nunca me chamou atenção. Descobrir artistas como esses me despertou o gosto pela poesia que até então eu não conhecia”. Através da influência desses artistas, começou a escrever o que alguns amigos intitularam de “neo-cordel”: assuntos profundos em linguagem simples. Trata de questões filosóficas, poéticas e políticas, muitas vezes com humor. “Como não sou palhaço, a minha necessidade de fazer humor e ir para a rua se expressa dessa forma”. Sendo artista de rua, tem contato direto com as pessoas e adora sentir a espontaneidade delas.

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Além disso, vê a arte de rua e a arte pedestre como uma questão política, no que se refere à falta de atenção de políticas públicas que atendam a necessidade da cultura acessível para todos. “Esquina que tem músico não tem assaltante”. Perguntei se a frase era dele, mas ele disse que leu por aí.

Através do varal itinerante, a ocupação da praça de Santo Antônio de Jesus teve início pela arte. Além de ser uma ação que atrai o interesse das pessoas para a cultura, ela também questiona e exige a necessidade da arte e poesia no dia-a-dia da população. Espontaneamente, ele e mais alguns amigos ocuparam a praça da sua cidade natal com um cinema e fotografias. E o que começou com cerca de 15 pessoas, logo se transformou em dias de praça lotada de gente. Destaca o quanto o desenvolvimento cultural traz o desenvolvimento da cidade.

Atualmente, além de fotografar, Rodrigo estuda, ensina e realiza projetos coletivos. No Labfoto, dá aulas de Iluminação Criativa e faz parte do Grupo de Pesquisa em Fotografia Contemporânea (GRIP). Em oficinas como “Introdução ao Universo Fotográfico” e “Caixa Mágica”, leciona em Salvador e no interior baiano de forma independente. Com esse trabalho educativo, visa despertar o amor pela fotografia através dos seus mistérios, utilizando em paralelo o cinema, a pintura e a poesia.

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Já no final da conversa, perguntei se ele considera-se uma pessoa carismática. Ele me respondeu: “A fotografia na rua foi um instrumento para mudanças profundas. Fotografar nada mais é do que uma boa justificativa pra chegar mais perto das pessoas”. Não ganhei a resposta exata para minha pergunta, mas a conversa me rendeu uma boa conclusão: Rodrigo se esconde atrás da câmera, mas se mostra antes disso. É um jornalista que, por trás da objetiva, encanta através do subjetivo.

Baianos se cadastram para eleições com biometria

ELEIÇÕES DESTE ANO CONTARÃO COM IDENTIFICAÇÃO DIGITAL EM SEIS CIDADES DO RECÔNCAVO

Uilson Campos

Mais 37 municípios na Bahia usarão o sistema de votação biométrica a partir deste ano. Espalhados em 15 zonas eleitorais escolhidas pelo TRE (Tribunal Regional Eleitoral), a biometria será utilizada por cerca de 700 mil baianos, representando 7% do eleitorado total no estado.

A primeira cidade na Bahia a utilizar a identificação biométrica foi Pojuca, na região metropolitana de Salvador, que desde 2010 já fazia uso do sistema nas eleições, sendo o único município do estado contemplado com essa tecnologia, até então.

No Recôncavo baiano, os eleitores de Cabaceiras do Paraguaçu, Dom Macedo Costa, Governador Mangabeira, Muritiba, Santo Antônio de Jesus e Varzedo já se preparam para irem às urnas em outubro identificando-se pela primeira vez com suas digitais.

Prazo prorrogado

Em Santo Antônio de Jesus, sede da 56ª Zona Eleitoral, o recadastramento dos eleitores, iniciado em 7 de agosto de 2013, acontece no FórumDesembargador Wilde Oliveira Lima, localizado na Avenida ACM, das 8 às 14 horas, de segunda  à sexta-feira . Inicialmente previsto para se encerrar em dezembro do ano passado, o atendimento teve seu prazo estendido porque um grande número de eleitores ainda não tinha efetuado o cadastro na data final.

O chefe do Cartório Eleitoral em Santo Antônio de Jesus, Hamilton Sacramento, diz que no início um volume grande de eleitores compareceu ao Fórum para efetuar o cadastro e muitos chegavam de madrugada para garantir o atendimento. Com a prorrogação, o prazo final para o cadastro é 28 de março.

Além de Santo Antônio de Jesus, a 56ª Zona Eleitoral também abrange os municípios de Dom Macedo Costa e Varzedo, abarcando cerca 76 mil eleitores. O chefe do cartório afirma que os que não comparecerem para o registro de biometria terão seus títulos cancelados e não poderão votar com os documentos antigos nas próximas eleições. As pessoas nessa condição terão até o dia 7 de maio para regularizar a situação com a justiça.

Tudo Digital

Comprovante de residência, RG e o título de eleitor antigo são os documentos exigidos para o procedimento. Isso é necessário porque, além do cadastro biométrico, o TRE também está fazendo a “revisão do eleitorado” nos municípios que receberão esse novo sistema. O procedimento é rápido. Após a análise dos documentos, são capturadas as impressões digitais de todos os dedos das mãos do eleitor, colhida sua assinatura e retirada uma foto de seu rosto. Um novo título de eleitor é emitido e o documento antigo é descartado. “É uma facilidade que teremos para as eleições. Com essa modernidade não teremos problemas com identificação”, diz Aldair Gonçalves, uma das servidoras que está trabalhando no cadastro.

Mais segurança?

Todos os dados são registrados digitalmente e armazenados, compondo um banco de informações que, associadas, identificarão a pessoa antes de se dirigir à urna e digitar seu voto. Para Nadson Soares, morador de Santo Antônio de Jesus, o processo de cadastro foi rápido e se tornará eficaz para a segurança nas próximas eleições.  “Vai ficar mais difícil, por exemplo, uma pessoa se passar por outra”, opina o eleitor.  Mas o chefe do Cartório Eleitoral lembra que outros mecanismos são necessários para que se garanta uma votação mais confiável. “Para a eleição se tornar segura é preciso a junção de vários fatores. O fator biométrico é algo que vem reforçar a segurança da eleição, o que não significa que, sozinho, viabilize isso”, declara Hamilton.

 

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Os eleitores devem comparecer à sede de sua Zona Eleitoral para efetuarem o cadastro.

 


Saiba mais sobre a biometria

A biometria é um tipo de técnica que utiliza “medidas biológicas” para a identificação de uma pessoa. Desde a Antiguidade,  assírios, babilônios, japoneses e chineses faziam uso do recurso, principalmente como “assinatura” em relações comerciais. Esses povos já entendiam que as impressões digitais de uma pessoa eram características únicas e inconfundíveis.

Em 1960, o FBI – Departamento de Investigação da Polícia Federal Americana – iniciou o processo de automatização e digitalização dos dados biométricos em suas bases, com o objetivo de tornar mais precisas as perícias criminais no país.

A popularização dos sistemas de biometria automatizada começou na cidade de Nova York em 1972, quando a tecnologia passou a ser utilizada para o “controle de ponto” dos funcionários nas empresas.

Cachoeira recebe câmeras de segurança 24 horas

CÂMERAS SÃO INSTALADAS EM PONTOS ESTRATÉGICOS PARA REDUÇÃO DA CRIMINALIDADE.

Alan Rocha Suzarte

A cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano, será monitorado por câmeras de segurança 24 horas. Segundo o tenente Eliel Alves, responsável pelo 2° pelotão da 27ª Companhia Independente da Polícia Militar – CPR LESTE, o projeto será custeado com recursos do próprio município e será operacionalizado pela Polícia Militar com apoio dos guardas municipais.

As câmeras estão sendo instaladas nas entradas da cidade,  no centro, na orla e em alguns pontos estratégicos. A iniciativa pretende contribuir para preservar os prédios e monumentos históricos da cidade, a exemplo das igrejas. Deve auxiliar também o trabalho da polícia na prevenção de delitos contra o patrimônio e a população.

Para o tenente, as câmeras ainda estão em processo de instalação, e os equipamentos em fase de teste para analisar possíveis falhas em seu funcionamento.

Ele afirma que a primeira etapa de instalação consiste em vinte câmeras, mas até o momento apenas dezesseis foram instaladas, e o sistema ainda não está implementado de forma adequada. As pessoas responsáveis pelo monitoramento estão em processo de treinamento, entretanto, algumas informações relacionadas a esse assunto, como os locais em que serão instaladas e como será feito o monitoramento, por exemplo, não podem ser passadas por motivos estratégicos.

Segundo a moradora Bárbara Castro, que se diz satisfeita com a proposta das novas instalações, “O mais importante das câmeras é que elas possam ajudar a polícia a agir de forma proativa, reagindo antecipadamente e evitando que a ação delituosa aconteça”.

Está é, também, a opinião de Neto Souza,para quem as câmeras deverão reduzir a criminalidade.  “Eu acho realmente necessário a instalação. Já havia passado da hora, devido a tantos crimes que vem ocorrendo em nossa cidade”.

Desorganização

Ao visitar  a sala de monitoramento, onde já foram instaladas algumas câmeras, é possível notar  que o local não tem estrutura, é desorganizado, os equipamentos não tem um bom funcionamento  e, desde que chegaram, ainda não há ninguém capacitado para operacionaliza-los. Também não foi passada nenhuma informação para os policiais militares sobre as câmeras. Apenas colocaram em local inadequado, com fiação exposta, e  os policiais ainda dividem o mesmo ambiente para realizar outras atividades.

O projeto é uma iniciativa do município que vai agregar a tecnologia para facilitar ou auxiliar o trabalho policial. Isso não dispensará, entretanto, o trabalho dos policiais nas ruas. Também não adianta ampliar o número de câmeras para o monitoramento eletrônico se não houver um policial que possa ir até o local para combater o crime. O objetivo é aliar a tecnologia ao trabalho do policial em campo com a pretensão de reduzir o número de pequenos delitos. Enfim, são várias tecnologias que se agregam para melhorar o trabalho prestado ao cidadão.

Violência é a maior preocupação dos estrangeiros em Cachoeira

PARA ESTRANGEIROS, VIOLÊNCIA TEM IMPACTO NEGATIVO NO TURISMO DA CIDADE.

Rafael Bacellar

A forte cultura do Recôncavo baiano atrai centenas de turistas todos os anos. Muitos vindos de outros países, principalmente da Europa e da América do Sul. É o caso do mochileiro chileno Tayo, que rumo ao Vale do Capão com um grupo de amigos, acabou parando em Cachoeira por causa da Feira Literária Internacional, a FLICA.

Na mesma ocasião, o grupo foi assaltado e, segundo Tayo, ainda assim decidiram ficar aqui por mais tempo. “Mas não são todos que reagem dessa maneira. Algumas pessoas se assustam”, completa.

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Isabel Pasternack: “Olhos azuis chamam mais atenção dos ladrões” (Foto: Aline Lima)

Com o programa de intercâmbios, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) também traz estudantes de fora para Cachoeira, como a aluna do curso de Gestão Pública Isabel Pasternack, 23, que veio de Bayeurth, na Alemanha, para passar um semestre estudando aqui no Brasil.

“Eu poderia ter escolhido outras cidades, mas eu queria conhecer o Brasil de verdade”, diz. Para ela, a maior diferença entre a Bahia e sua terra natal está nas relações entre as pessoas. “Dizem que nos lugares mais quentes as pessoas são mais próximas”, conclui.

Mas quando questionada a respeito dos pontos negativos da cidade, respondeu prontamente: “Desde que eu cheguei as pessoas me dizem pra tomar cuidado. Por ser loira dos olhos azuis, eu acabo chamando mais atenção dos ladrões.”

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Cristina Solimanos: “Redução do número de turistas” (Foto: Aline Lima)

A argentina Cristina Solimanos, 70, vive em Cachoeira por quase trinta anos e, além de artista plástica, é dona da pousada La Barca. Segundo ela, o aumento da violência é a principal causa da redução no número de turistas que ela recebe em seu estabelecimento. Há trinta anos, quando ainda desenhava o rosto das pessoas nas ruas e restaurantes e a cidade não era tão violenta, havia muito mais turistas, e foi por isso que ela decidiu abrir o negócio. “Hoje a pousada funciona com os ecos da universidade”, conclui, referindo-se à UFRB, que com seus inúmeros eventos e palestras acaba movimentando o turismo local.

Dados do Comando da Polícia Militar de Cachoeira indicam que Cristina pode estar certa. No ano de 2013, 112 furtos e roubos aconteceram no município. Em grande parte dos casos, as vítimas eram estudantes ou estrangeiros.

Comércio em baixa

QUEDA DAS VENDAS EM GOVERNADOR MANGABEIRA TRAZ PREOCUPAÇÕES AOS COMERCIANTES.

Cristhiele Maiane Teles Conceição

Governador Mangabeira passa por um período sem crescimento no comércio local. Desde o mês de dezembro as reclamações dos comerciantes aumentavam a cada dia. “A cidade vive um péssimo momento. A queda está constante”, afirma a comerciante Nizete Fiúza.

O principal motivo dessa queda de consumo na cidade está ligado ao fato de que a maioria da população prefere consumir no comércio das cidades vizinhas, a exemplo de Cruz das almas, a maior delas, localizada a 12 km. È bastante desenvolvida, com um bom crescimento no comércio devido à chegada da UFRB. E já possui grandes redes de lojas no centro comercial.

Comerciantes e consumidores locais acreditam que os comerciantes de lojas não investem nas compras dos seus produtos. Eles compram, em quantidades maiores, roupas iguais, mas não investem em produtos da moda, o que resulta em pouca variedade. Neste caso, fazem com que os consumidores busquem a cidade vizinha, onde há mais diversidade de lojas e variedade dos produtos. Há ainda o fato de que, em Cruz das Almas, as lojas facilitam as compras, dividindo-as em parcelas maiores e sem juros.

Os comerciantes, tanto de lojas quanto dos salões de beleza e lojas de móveis, afirmam que eles se deslocam até outros estados para comprarem produtos do gosto de seus clientes, porém, a população mangabeirense não se satisfaz e não valoriza seus produtos buscando alternativas em outros lugares. As mulheres buscam comércios que possuem “status”, salões chiques, recorrendo a cabeleireiros com nomes conceituados.

“A população não resiste ao comércio vizinho. O impacto está sendo grande para nós comerciantes, mas dá para sobreviver. Pelo que vejo, é meio que impossível deixarem de ir para Cruz, mas quando eles precisam de algo imediato, procuram o comércio da cidade. Os homens não se importam com status, já as mulheres sim, são levadas por influências”, diz Mari Cerqueira.

Os comerciantes de supermercados concordam com essa avaliação. Dizem que, devido à abertura de muitos estabelecimentos comerciais na cidade, onde a demanda de habitantes é pouca para a logística existente, a falta de opção e variedade é constante. Cruz das Almas, com seu comércio ilimitado, possui redes de grandes lojas, tornando as opções variáveis, sendo assim, os consumidores saem em vantagem e a demanda consegue ser extensa. Os gerentes das lojas de materiais de construção não sentiram tanto quanto as outras o impacto da queda das vendas. Às vezes a redução é comum, mas de uns tempos para cá, não têm do que reclamar.

Segundo a expectativa dos comerciantes de Governador Mangabeira, a previsão mais evidente para esses meses é que as vendas apresentem a mesma situação vivida até o mês de abril. Ainda assim, acreditam que próximo ao mês de junho, a procura e a expectativa aumentam para terem um bom rendimento nas lojas.

As mazelas do Acupe

DISTRITO DE SANTO AMARO, ACUPE ENFRENTA SÉRIOS PROBLEMAS DE INFRAESTRUTURA URBANA E SANEAMENTO BÁSICO.

Danilo Valverde

Banhado pela Baía de Todos-os-Santos, Acupe é um distrito de Santo Amaro que tem como principal atividade a pesca e a mariscagem. O distrito é cercado pelo manguezal, ecossistema que garante o trabalho das famílias que ali residem. Atualmente, com a população estimada em oito mil habitantes, Acupe enfrenta problemas de infraestrutura urbana e saneamento básico.

Fundado por negros alforriados ainda no século 19, Acupe tornou-se distrito em 1953. Desde então, a prática da pesca artesanal e a mariscagem tem sido as principais fontes de renda dos moradores. Praticamente tudo é retirado da Baía de Todos-os-Santos e do ecossistema predominante da região, o manguezal. Mas a riqueza da biodiversidade do local entra em contraste com a precariedade das ruas da comunidade. O crescimento urbano não foi acompanhado de obras de infraestrutura e saneamento básico, trazendo transtornos para quem vive na localidade.

Para a moradora Noêmia de Aquino Lopes, 44, existe descaso por parte das autoridades locais. Ela conta que apesar do pagamento do IPTU à prefeitura, não há investimentos no local. “Toda riqueza aqui de Acupe vai para Santo Amaro e não vemos retorno nenhum dos impostos que pagamos”, acrescenta. Com calçamento apenas nas ruas principais, o distrito não possui rede de esgoto, e por isso parte dos detritos domésticos são eliminados nas ruas, enquanto a outra parte é armazenada em sistemas de fossas. O problema se agrava em dias de chuva. Como não há sistema de captação das águas pluviais, vários pontos ficam alagados. A mistura de lama e esgoto aumenta o risco de doença da população.

A ameaça de contaminação do manguezal é outro problema sério. Sem a rede de esgoto, todos os detritos jogados nas ruas vão parar no mangue. Segundo a marisqueira Ângela Maria dos Reis, 34, a poluição das áreas de pesca e mariscagem já é percebida, assim como as transformações que isso tem provocado. “Hoje nós encontramos mais dificuldade para encontrar os mariscos. Tem muita sujeira no mangue e isso acabando com a nossa riqueza”, afirma.

Programa Mais Médicos chega a Cruz das Almas

COM A VINDA DE MÉDICOS CUBANOS, O RECÔNCAVO BAIANO ESPERA MINORAR OS GRAVES PROBLEMAS NA ÁREA DA SAÚDE PÚBLICA.

Elaine da Silva Conceição

Na primeira semana do mês de janeiro de 2014, chegou ao município de Cruz das Almas o médico cubano Willian Beraldo Carballo Taboada que foi recebido pelo atual prefeito Jean Cavalcante Silva e pelo secretário de saúde André Eloy. O médico atenderá na comunidade do Tuá, zona rural do município e, como foi indicado pelo Ministério da Saúde, residirá a 50 metros da unidade de atendimento.

Segundo o secretário de saúde André Eloy, Cruz das Almas sempre teve suas unidades de saúde ocupadas por médicos. Ainda assim o município foi escolhido pelo Ministério da Saúde para receber o médico cubano. Isso se deu por causa da existência de uma comunidade Quilombola em sua região, a qual já estava assistida por médico e como o próprio programa não prevê a demissão do médico brasileiro em detrimento à chegada do profissional cubano, foi criada uma unidade na zona rural de Tuá, para onde ele foi redimensionado.

A Secretaria de Saúde alugou uma residência para o profissional a 50 metros da unidade de atendimento com a proposta de aproximá-lo da comunidade. “Como essa é uma missão que denominamos humanitária, vemos que ele a cumpre muito bem  e nós estamos fazendo de tudo para mantê-lo bem instalado”, explicou o secretário.

Juntamente com a Prefeitura Municipal, a Secretaria de Saúde do município de Cruz das Almas, já conseguiu um segundo profissional do Programa Mais Médicos, que é brasileiro e fazia parte do programa de valorização da atenção básica (Provab). Por não ter sido aprovado em residência médica, houve a opção de migrá-lo para o programa Mais Médicos.

“Estamos muito satisfeitos com o trabalho do médico Willian. Ele é um grande profissional”, disse o secretário.

Já o médico cubano, nos três meses que está em Cruz das Almas, disse não ter enfrentado muitas dificuldades, que não encontrou problema com a comunidade e que os moradores estão muito felizes com a sua chegada. Ele disse que está sendo difícil viver longe da sua família e amigos, e, mesmo o Brasil e Cuba tendo coisas parecidas, como a descendência africana, sua família também está enfrentando essa situação com dificuldade.

O Programa Mais Médicos tem contrato de três anos que pode ser prolongado de acordo com as necessidades. Para o médico cubano é bom para seu aprendizado e para seu currículo estar trabalhando no Brasil e, mesmo com as más condições de trabalho, ele confessou gostar de atender aos mais necessitados, pois considera ser esta a sua missão.

Willian disse ainda que, nesses três anos que terá pela frente, pretende continuar conhecendo o povo brasileiro, as características da saúde em sua área, a cidade, pessoas novas e o principal, ele pretende ter saúde para continuar trabalhando e ajudando a todas as pessoas que precisam dele e da sua equipe de saúde.

As máscaras de um artista

AS CONTRADIÇÕES CULTURAIS DE UMA DAS FESTAS POPULARES QUE MAIS ATRAI TURISTAS NO RECÔNCAVO.

Tarcila Santana

O carnaval do município de Maragogipe é uma festa tradicional que, segundo historiadores, ocorre há mais de cem anos. Em 2009, foi tombado como patrimônio Cultural Imaterial da Bahia pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC). A festa passou a ser bastante divulgada pela mídia do estado e se tornou famosa pela mistura das tradições europeia, indígena e africana, retratada através das fantasias e máscaras – marcas do carnaval da cidade.

Aliada à popularização e difusão da festa, a produção de máscaras para o carnaval transformou-se em atividade comum entre alguns artistas plásticos locais. Para perceber a festa sob outra ótica, entrevistamos o artista plástico Edmilson Pereira, 79, que produz máscaras de carnaval há cinco anos.

O artista

Edmilson, ou Ed Pereira, aprendeu a fazer as máscaras com seu irmão, ainda na adolescência. Para aprimorar o artesanato, fez um curso de papel machê e aplica as técnicas aprendidas na confecção das peças. Apesar de ter aprendido há tanto tempo, só decidiu começar essa atividade há poucos anos. Sua inspiração vem das revistas e televisão. Ele explicou como é o processo de produção e contou que o trabalho é coletivo, pois sua esposa e filhos também participam de algumas etapas da confecção.

Além das máscaras, Edmilson também faz esculturas com raízes mortas das plantas de manguezal. Ele já expôs suas obras em alguns lugares de Salvador, como o Pelourinho, Espaço Berinjela e os colégios São José e São Salvador. O Instituto Mauá também já comprou algumas de suas máscaras. Apesar de já ter feito algumas exposições, decidiu dedicar-se com mais empenho à produção das máscaras, deixando um pouco de lado o trabalho com as raízes do mangue.

Uma arte para turistas

Todo o fomento e divulgação da folia momesca trazem para a cidade uma visibilidade muito grande durante essa época do ano, que chega a ultrapassar fronteiras e atrair turistas de várias partes do país e também muitos estrangeiros. Através de obras levadas por Edmilson até a Casa da Cultura de Maragogipe, alguns turistas chegaram a visualizar e comprar seu trabalho, que foi divulgado em revista estrangeira ano passado.  A revista Floreal do Recôncavo, de Cachoeira, produziu um impresso sobre o carnaval de Maragogipe, que homenageou o artista na primeira página.

Apesar dessa visibilidade externa, dentro do município as coisas são diferentes. Quando perguntado sobre a valorização dos artistas plásticos em Maragogipe, ele afirmou que isso não acontece e a própria população já nem se importa mais com seu trabalho. Durante um ano, Edmilson montou um pequeno ateliê em Maragogipe e não recebeu visita alguma da população local, bem como nenhum apoio ou divulgação por parte de alguma instituição da cidade. Ou seja, mesmo com o esforço para preservar e difundir a cultura local existe uma contradição; o apoio e a valorização dos artistas, que constituem parte da história do carnaval, são mínimos.

Embora esse aspecto seja perceptível na fala do artista, ele não coloca os fatos em tom queixoso; apenas conta suas histórias e se orgulha muito do seu trabalho. Segundo ele o artesanato é uma “higiene mental, uma terapia sem preço”.

Além de falar sobre sua arte, Edmilson ainda contou um pouco sobre os antigos carnavais e as mudanças que ocorreram no decorrer do tempo, afirmando a necessidade de manter as tradições, reconhecendo seu próprio papel nessa preservação.

Casa de Barro: cultura, arte e educação no Recôncavo

HÁ NOVE ANOS, A ENTIDADE PROMOVE EVENTOS EM PROL DO DESENVOLVIMENTO HUMANO.

Sarah Sanches

A Casa de Barro é uma organização não-governamental, fundada no ano de 2005. Possui, entre seus objetivos, a promoção da cultura e o desenvolvimento do caráter humano através da arte – com exposições, cursos, eventos artísticos –, cultura – com apresentações teatrais, grupos de leituras -, e educação – com cursos, disponibilização de livros e outros. A Casa de Barro conta hoje com a colaboração de oito mulheres, cinco delas arte educadoras e as demais coordenadoras – geral, de Comunicação e de Arte Educação.

As ações da ONG são multifacetadas. Nos últimos cinco anos, cerca de 26 eventos foram promovidos. Entre eles, Dedinho de prosa, Cadinho de memória, que em 2012 alcançou sua terceira etapa com o lançamento de um livro homônimo. O projeto é uma iniciativa interdisciplinar. Em 2009, na cidade de São Félix, desenvolveu uma oficina de criação literária e de incentivo à leitura; em 2011, em São Félix e Cachoeira, ofertou curso de formação de multiplicadores para educadores formais e não-formais, e em 2012, lançou o livro resultado de um trabalho de investigação sobre a memória oral de Cachoeira visando o incentivo à escrita e a leitura de crianças, adolescentes e jovens adultos.

“A Casa de Barro participa de forma muito efetiva na formação de jovens e crianças e na construção da identidade, uma vez que seus projetos têm esse caráter histórico-social e as pessoas envolvidas na realização estão sempre muito dispostas. Ela ajuda nessa percepção do mundo e nessa interação de forma criativa e lúdica”, afirma Fábio Rodrigues, estudante de Jornalismo da UFRB e artista integrante da companhia de comédia Bocó, que participou do último evento ocorrido na ONG, o Encontros Poéticos. Na programação do encontro: feira de trocas de livros, declamações de poesias, atividades de desenho e pintura, apresentação de dança e musical, lançamentos de livros e recital performático.

Redes Sociais

Em 2013 foram realizados nove projetos demonstrando a evolução da organização que em seu primeiro ano promoveu um único evento de grande porte: o Caruru dos 7 poetas. No mês de março, em homenagem ao aniversário de Castro Alves e ao dia nacional da poesia acompanharam o Grupo Rouxinol de Poesia em um cortejo poético pela cidade de Cachoeira.

Yasmim Marinho, graduanda em Comunicação Social, conheceu recentemente a organização. Segundo ela “o espaço é bem bacana, os ambientes foram bem utilizados, cada cômodo tem uma utilidade diferenciada, tornando a casa um lugar tão multifacetado quanto a proposta da própria ONG”. A Casa de Barro conta, entre outros espaços, com uma biblioteca, varanda ampla a céu aberto onde ocorrem oficinais e apresentações, uma estante para sebo.

Nas redes sociais, a Casa de Barro mantém uma página de eventos que visa incentivar a leitura durante todo o ano. Intitulada como: “Desafio Leituras de Mundo – Incentivo à leitura”, o objetivo da página de livre participação é que aqueles que lá estão conectados dividam suas experiências literárias, enviando suas próprias resenhas e compartilhando com os demais, na tentativa de alimentar a curiosidade pela literatura. Além disso, na página oficial da organização constam dicas de leituras, mensagens com valores simbólicos, fotografias dos eventos já passados e promoção dos eventos culturais ocorridos nas cidades de Cachoeira e São Félix, estendendo seu papel social das ruas calçadas das cidades.

 Diálogos e limitações

Apesar da beleza e significância dos trabalhos realizados pela organização, ainda existem outras limitações no que se refere ao desenvolvimento e promoção da arte e da cultura na cidade. Como bem lembra Fábio Rodrigues: “A UFRB é um importante agente nessa promoção cultural, sinto que há um empenho, que precisa ser repensado sempre e melhorado, mas também vejo que há ainda pouco diálogo com o espaço, a questão do sentir o chão que pisa, principalmente dos artistas advindos da Universidade. Acredito que falta incentivo governamental para as produções tradicionais, viabilizando o contato, a exibição. Tem o Cineteatro Cachoeira que não foi aberto ainda, mas que será uma grande oportunidade, espaço, para os artistas da terra – isto se for realmente bem gerido. No mais, vejo uma vontade e disponibilidade grande dos gestores dos centros culturais, dos espaços artísticos para ocupar esses locais e se produzir, tanto em Cachoeira quanto em São Félix. E sei que ideias não faltam, mas para elas tomarem forma, cor, cheiro, é realmente necessário ajuda”.

O Recôncavo em telas

COMO A REGIÃO É REPRESENTADA ATRAVÉS DAS ARTES PLÁSTICAS.

Thainá Dayube

O Recôncavo baiano tem como principal característica sua grande variedade de elementos, sejam históricos, culinários, religiosos, musicais ou arquitetônicos. Cada cidade possui suas peculiaridades, contribuindo para a grande diversificação existente.

As comidas antigas se fundem com novas receitas, músicas que surgiram em séculos passados hoje interagem diretamente com ritmos novos, a arquitetura barroca dos casarões coexistem com construções mais modernas, com as artes plásticas não poderia ser diferente. Artistas representam a região em diferentes estilos, sejam eles surrealistas, abstratos, ou em uma gravura, o Recôncavo ganha diversas formas a partir de diferenciados olhares e traços.

 Os artistas que vivem nessa região são muitas vezes influenciados pelas pessoas, costumes e vivências. O artista plástico Pirulito, diz que a religião, o folclore, as brincadeiras lúdicas e as cores  do Recôncavo o inspiram na hora de pintar. Já Suzart, artista que segue uma linha mais surrealista, diz: “Me inspiro nas pessoas e costumes do Recôncavo pois sou fruto desta região.” Com obras mais abstratas e contemporâneas, Sales afirma que, de uma certa forma, toda essa mistura e cores regionais acabam influenciando seus quadros, mesmo que seja de forma indireta.

Antes dos atuais nomes que representam as artes plásticas na região, Dante Lamartine era o pintor mais atuante. Sales e Suzart afirmaram ter influência direta de Dante. Mesmo que pintem em estilos diferentes, a obra do artista os influenciou fortemente. “Tive a influência direta da arte de Dante Lamartine, porque sempre tive contato com seus trabalhos em exposições na cidade quando era jovem’’, diz Sales.

O reconhecimento da arte feita no Recôncavo é um assunto que gera controvérsias. Para Suzart, “temos muitos artistas respeitados e admirados em vários lugares no mundo, principalmente os escultores cachoeiranos’’. Já Pirulito acha que falta um pouco mais de reconhecimento. Independentemente das opiniões, todos afirmam trabalhar para levar a arte regional para fora e fazer com seja reconhecida em outros lugares.

Seja através dos pincéis e tintas, madeira esculpida, lentes de uma câmera ou som de um instrumento, o Recôncavo vem sendo representado através das artes. Seu artesanato passado de geração em geração, nas famílias, seu grande acervo arquitetônico, sua música e culinária própria. Tudo isso é história, tudo isso é arte.