Um espetáculo de lembranças

UM PASSEIO PELA HISTÓRIA DO CINETEATRO CACHOEIRA NA MEMÓRIA DO ANTIGO PROJETISTA, ADILSON MACHADO.

Fabio Rodrigues Filho

Faz quase 25 anos que não se assiste e nem se apresenta uma peça, nem um filme no Cineteatro Cachoeira. Prédio imponente, já reformado, de portas e janelas envernizadas e fachada gelo, que ao olho desatento, não denuncia a imensidão trancada nas portas que lhe dão acesso.

Das pessoas que eu conversei sobre o cineteatro, Adilson Machado é o que guarda mais lembranças e emoção ao pensar no período áureo de movimentação no tablado e na tela. Prestes a completar 85 anos, sua vida se confunde com a história do local. Não só por se tratar de um grande amante do cinema, mas também por contribuir muito com o Cineteatro Cachoeira, acionando o olho do projetor ou se emocionando ao assistir um filme lá.

Com vinte anos, em Itajuípe, na região cacaueira baiana, seu Adilson já tinha sido pedreiro, pintor, alfaiate, balconista e, sobretudo, assíduo espectador do cinema da cidade. Quando soube da oportunidade de trocar seu salário de 420 cruzeiros por 600 cruzeiros indo trabalhar no cinema, não pensou demais. Largou o emprego de balconista e foi num domingo aprender sobre projetor de filmes.  Trabalhou por outras cidades da Bahia onde a empresa estava abrindo cinemas, como Vitória da Cachoeira, aprendeu idiomas e chegou em Cachoeira, em 1952, quando a empresa Marom arrenda o até então Cine-Teatro Cachoeira, mudando o nome para Cine-Teatro Glória.

Seu Adilson tornou-se operador chefe, projetava os filmes – o cineteatro possuía dois projetores, o que possibilitava projetá-los sem intervalo e um título de moderno –, produzia os cartazes de divulgação com destaque para os filmes coloridos, gravava as chamadas das exibições e também morava no cinema. Guardava em um dos camarins suas malas, fotos e tinha uma cama. Foi assim que o projetista tornou-se morador cachoeirano.

O até então Cine Real. Nessa época, o primeiro andar possuía marquise ainda. Foi na varanda central que Thelmo, um dos diretores caiu e morreu na porta do cineteatro. (Foto: Arquivo pessoal de Raimundo Carvalho)

“Eu trabalhava em Conquista, vim para reinaugurar [o cinema] com a Marom, que  arrendou e fez a reforma. [Tinha] Tela maior [CinemaScope], dois projetores, projeção sem interrupção. Com um certo tempo, ele se chateou com o cinema e vendeu ao próprio gerente. Passou a ser o Cine Real. Depois disso um rapaz de Valença quis arrendar o cinema, mudando pra Cine Simões. Com um certo período, caiu a renda, entregou à empresa [Marom], entrando Thelmo”. Foi quando recebeu o nome de Cine Teatro Cachoeirano, acrescenta Adilson lembrando que o cinema foi administrado pela família Dayúbe com o nome de Cine Astro. Voltaria ainda para as mãos de Thelmo e depois de Luís, atual diretor da Santa Casa de Misericórdia. Resumindo a longa história de arrendamentos e de muitos diretores do cineteatro.

As apresentações no cinema eram sempre eventos na cidade, todos se encontravam, vinham de fora e havia uma emoção coletiva ao partilhar do momento mágico de brotar da tela cor, som e lugares que não se imaginaria. “Iam duas filas até de junto do brega, duas filas pra comprar ingresso. O salão era 480 poltronas. No bar Night on Day todo mundo ia pegar cadeira emprestada pra não ficar em pé. Tinha sessão que chegava a 700 pessoas. Quando precisava passar dava um trabalho desgramado, tomavam todo corredor. Todos filmes bons superlotavam.” Coincidiu que naquele tempo, Cachoeira não era ligada a Salvador pela estrada de rodagem, o transporte era trem e navio, o pessoal ficava aqui. O pessoal do sertão vinha pegar o navio aqui. Os que não podiam pagar hotel, ficavam na praça, aí compravam ingresso pra dormir no cinema. Seu Adilson era também o responsável por acordar os desabrigados e por pra fora do cineteatro, muito embora ele entendesse bem do prazer de morar no cinema.

Ruínas: a situação do cineteatro antes da revitalização. (Foto de divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo. Fotógrafo: André Souza)

A realidade das enchentes que assolavam Cachoeira não poupou o cineteatro. Em 1960 uma grande enchente viria prejudicar o cinema todo. Os funcionários entraram de canoa pelo primeiro andar do cinema e salvaram os equipamentos mais importantes.

“As enchentes vinham até a marquise, a de 60, foi 10 cm dentro da cabine. 25 de junho passava um filme de toda história de Cachoeira, tinha de passar esse filme como lembrança, a gente esqueceu de baixo da cabine,  com os jornais, aí perdeu a imagem toda na enchente. A água veio 10 cm dentro da cabine, na enchente de 60. No fundo da camarim, tinha minha cama, minha coleção de revista, fotos…”. No dia da enchente, Seu Adilson queria ainda dormir em seu quarto, mas foi impedindo pelos amigos. Se tivesse dormido, talvez não tivéssemos o cineteatro tão vivo hoje.

Apesar das dificuldades e surpresas como um cinema afogado, trabalhar no cinema aumentou a paixão de seu Adilson por filmes. Dentre os vários filmes exaustivamente assistidos, ele escolhe como preferidos:“Ave do paraíso, que espetáculo! Duas sessões… filme que deixou saudade mesmo. Nunca mais esse filme voltou, ninguém sabe da cópia desse filme. Filme bom, colorido… 7 noivas para 7 irmãos, o filme que mais passou…”. Ao se tratar dos shows, Adilson destaca: “Vicente Celestino que foi um espetáculo, com aquela voz maravilhosa. Orlando Silva, o cantor de minha predileção”, os artistas que vinham se apresentar no cineteatro ficavam hospedados logo em frente no Hotel Colombo, a praça inteira se organizava e vivia em função das apresentações.

Uma curiosidade sobre as exibições, é que enquanto passavam os filmes de bang bang, de tanto ver, Adilson ficava na cabine imitando os personagens, até alguém se incomodar com a zoada e cortar a cena. Após o sucesso seguido do desprezo aos filmes de bang bang, o cineteatro passou a exibir as pornôs chanchadas. “Eu propus a sessão coruja. Após as projeções de filme normal, fazia a sessão coruja. Só para homem, com exceção para as meninas do brega. Os filmes vinham da Holanda em 8 mm, as pessoas depois de um tempo não aguentavam mais o repeteco”, o cineteatro começava a entrar em decadência de público. Nesse mesmo período, uma companhia teatral que apresentava sexo explícito no palco foi trazida para levantar maior público. “Hoje o cineteatro apresenta sexo ao vivo só para homens”, anunciava seu Adilson pelas ruas da cidade no intuito de levantar o cineteatro. De operador para plateia, Adilson ficou logo na frente na apresentação. O cenário: três camas e uma mulher em cada uma delas, enquanto os homens ficavam atrás da tela se preparando. “Um broxou na hora, depois voltou e fez o serviço”, conta em voz baixa e rindo da cena.

Teatro revitalizado

Fachada reformada do Cineteatro Cachoeira. O local segue fechado para visitações.  (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

Fachada reformada do Cineteatro Cachoeira. O local segue fechado para visitações. (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

“Ficou bacana para o que era o prédio. Hoje tem um cinema moderno, achei modificações no salão, o paredão da cabine. Mudança na escadaria e na sala de projeção. Houve uma reforma muito grande! Eu tô sentindo que não demora muito pra abrir.” O antigo funcionário não esconde a emoção de poder ver o cinema funcionando de novo, e com filmes e peças produzidas aqui. Ele considera que a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) deve ficar com uma parte do cineteatro para fazer suas produções, amostras e eventos em geral. A decisão atual é que a Prefeitura da Cachoeira irá gerir o cineteatro, por um entendimento do Iphan junto à própria prefeitura.

“Antes era uma alegria, vinha esse pessoal todo assistir as matinês, quando quebrava uma parte [do filme] havia muita zoada. Era bacana!”, completa destacando a importância de ver de novo as crianças no teatro, lembrando da festa que era quando as crianças vinham do bairro do Caquende [bairro onde começou Cachoeira] para as matinês, todas juntas correndo para a Praça Teixeira de Freitas.

 Na sala principal, em razão das plataformas retráteis, as várias configurações da plateia proporcionam possibilidades cênicas diversas, como teatro de arena, semi arena ou italiano. O projeto arquitetônico é de Alexandre Prisco, com a colaboração de Vinicius Bustani e André Souza. Coordenação técnica local do Monumenta: Gabriel Gonsalves e Eduardo Fucs. (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

Na sala principal, em razão das plataformas retráteis, as várias configurações da plateia proporcionam possibilidades cênicas diversas, como teatro de arena, semi arena ou italiano. O projeto arquitetônico é de Alexandre Prisco, com a colaboração de Vinicius Bustani e André Souza. Coordenação técnica local do Monumenta: Gabriel Gonsalves e Eduardo Fucs. (Foto divulgação A&P Arquitetura e Urbanismo, fotógrafo: André Souza)

Seu Adilson trabalhou de 1952 a 1992 no Cineteatro Cachoeira. Hoje está aposentado, continua vivendo em Cachoeira, construiu família aqui, compra pão todos os dias no mesmo horário, segue com sua voz de locutor e costuma ficar na porta de sua casa com um largo sorriso para os passantes ao cair do sol. Leva consigo a memória viva do Cineteatro Cachoeira e assim como toda a população cachoeirana aguarda a abertura da nova e velha casa de espetáculo mais importante do Recôncavo Baiano.

Que as portas do cineteatro estejam abertas para muitas outras histórias como essa, que daria um ótimo filme ou uma excelente peça.

Histórico do Cineteatro

  • Em 12 de abril de 1923, é inaugurado o Cineteatro Cachoeira, de propriedade do senhor Cândido Vacarezza.
  • A empresa Marom, arrenda o teatro em 1952 e o transforma em Cineteatro Glória.
  • Nos anos 50, grandes artistas da música brasileira,como Luiz Gonzaga, Vicente Celestino, Ângela Maria, Orlando Moraes, Sílvio Caldas, se apresentam no cinema com grande lotação.
  • O filme O mágico e o delegado é filmado dentro do cinema. No elenco estava a atriz Tânia Alves.
  • Depois de vinte anos fechado, já em ruínas, sem a fachada principal, o prédio foi comprado em 2009 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por cerca de R$ 179 mil. A reforma foi uma contrapartida do governo do Estado da Bahia e o Programa Monumenta, também do Iphan.
  • A reabertura do teatro foi adiada duas vezes. Segundo o secretário da Cultura da Cachoeira, José Luís. Já foi comprado um transformador especial pro ar-condicionado, que estava dando problemas de funcionamento. Com a chegada do transformador, haverá um teste geral de todos os equipamentos e será marcada uma data oficial, sem pressa.
  • A Prefeitura Municipal da Cachoeira assumirá a gerência do teatro, ainda segundo o secretário de cultura, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) terá seu espaço também para eventos e realizações. O secretário não definiu ainda como será, mas pensa em um dia da semana o Cineteatro ficar à disposição da universidade.
Anúncios

Dois olhares sobre “Edifício Master”, obra-prima de Eduardo Coutinho

PASSADOS QUE NÃO PASSAM DÃO O CLIMA CLAUSTROFÓBICO DO ‘EDIFÍCIO MASTER’

Uilson Campos

Uma professora de inglês paranóica, uma garota de programa dissimulada, uma mal sucedida cantora de bailes. O que essas pessoas teriam em comum? O fato de dividirem os compartimentos de um mesmo prédio. Vidas que, embora separadas por paredes, em muitos aspectos se somaram e deram a identidade do emblemático Edifício Master, prédio carregado por um passado que parece não passar.

Elas são apenas algumas dos vários personagens reais que estrelam, ainda que como estrelas decadentes, o documentário dirigido por Eduardo Coutinho que leva o nome do prédio que abriga famílias de classe média/baixa situado em Copacabana, contrastando com a vida elitista de um dos mais nobres bairros cariocas. Em Edifício Master, o cineasta passa uma semana habitando no local e gravando depoimentos dos mais diferentes moradores.

O Master, que já serviu como antro de prostituição, ambiente frequentado por usuários de drogas e onde ocorreram suicídios e assassinatos, é representado pelos habitantes de forma que seus testemunhos pessoais se misturam com a história do edifício.

Os depoimentos dos moradores são conduzidos pelo cineasta em entrevistas. Cenas dos corredores sombrios, silenciosos e pouco movimentados do prédio servem de passagem entre um personagem e outro. Embora possuam vidas muito parecidas, o documentário mostra que os habitantes do Master têm pouco contato entre si, caracterizando um clima de solidão que é bastante marcado em suas falas.

Um tipo bastante constante no documentário é o do idoso que mora sozinho, embora tenha filhos ou outros parentes, sendo esquecido, distanciado ou abandonado pela família. Casos como o da ex-costureira da elite carioca que, após ficar viúva, busca um novo companheiro; o de uma cantora que disfarça a solidão ouvindo música em uma vitrola antiga; ou o de um homem divorciado e que não encontra mais emprego, por conta da idade avançada. Nesses momentos, prevalece o tom de nostalgia que parece impregnar as paredes do edifício.

O documentário também evidencia a diversidade presente no local, onde vivem pessoas de diferentes culturas, vindas de diversas partes do Brasil e até de outros países. Moradores inusitados, como os jovens integrantes de uma banda que desejam fazer sucesso com a música, a estudante universitária que sonha em seguir uma profissão e a jovem que faz planos de morar nos EUA com o namorado americano destoam do perfil de ‘fim de carreira’ dos outros habitantes.

Com cenas que reforçam o aspecto claustrofóbico do ambiente, onde cada um vive suas memórias de forma particular, o documentário consegue fazer da câmera aquilo que uma das moradoras diz acontecer com os vãos das janelas de seu apartamento, em que “a vida das outras pessoas entram pelos basculantes”.


UM OUTRO MAR EM COPACABANA

Nicolle Cajado

Copacabana, Rio de Janeiro. Famoso e “nobre” bairro da ‘Cidade Maravilhosa’. A inspiração de tantas canções abriga também ‘seres comuns’. Uma parte no convencional Edifício Master, que possuiu 200 apartamentos e cerca de 500 moradores. Edifício que dá nome ao documentário de Eduardo Coutinho, onde ele mostrou a semelhança sentimental na individualidade de moradores que aparentemente não tem relação alguma além da vizinhança silenciosa.

Os corredores deprimidos do Master carregam uma história com má reputação. Antes o edifício era um ambiente onde a vida boêmia era constante. Festas mal vistas, prostituição e crimes não eram surpresas no passado do Master. Ao mesmo tempo em que a história do prédio é contada pelos antigos e recentes moradores, eles colocam-se nela. Confundindo o caráter histórico e individual, e depois transferindo o filme para depoimentos pessoais.

A equipe entrando e falando com os moradores, os cômodos dos apartamentos mostrados calmamente, as perguntas do diretor que podemos ouvir, são coisas aparentemente simples, mas que revelam a índole realista da obra. A cada depoimento, percebemos que por trás das angústias ou contentamentos que são contados, há um sentimento em comum entre os moradores. É tudo muito íntimo e pessoal, mas também há uma sensibilidade habitual nas histórias.

Apesar dos contextos, das idades, das profissões, da relação de cada morador ser diferente, todos acabam construindo uma alusão à relação do ser humano com o mundo e nos fazendo refletir sobre tal relação. Os habitantes do Edifício Master mostram que independente de onde moramos, estamos dentro de um mar de melancolia onde nossas angústias e frustrações estão mergulhadas dentro da chamada privacidade.

O filme ganhou o Prêmio Margarida de Prata e o troféu APCA na categoria de melhor documentário, além de ter vencido o Festival de Gramado (2002) nas categorias de melhor documentário, melhor roteiro original e melhor diretor. A simplicidade e naturalidade com que as entrevistas foram desenvolvidas garantem o intimismo que criamos com cada morador no decorrer do filme. Isso coloca em prova qual é o verdadeiro papel da privacidade num prédio onde os moradores não falam com seus vizinhos, mas contam sua história para um desconhecido.

Por trás da objetiva: o subjetivo Rodrigo Wanderley

Aline Portela

Autorretrato

Autorretrato

Arteiro. Essa foi a resposta de Rodrigo Fiusa Wanderley quando o perguntei como ele se definia. É jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), porém, apesar do diploma, vive da fotografia. Seu gosto pela rua, principalmente no que se refere à vida pacata do interior baiano, vem da criação: nasceu em Santo Antônio de Jesus e viveu quase toda sua infância por lá. Experimenta, vive e constrói seus próprios mundos inventados. Tem fascínio pelo mistério e através da fotografia o explora, conta e inventa estórias.

Ainda na UFBA, iniciou-se como fotógrafo no LabFoto, onde passou dois anos e meio trabalhando e estudando. Em 2011, participou da fundação Olhos de Rua, projeto que leva projeções de imagens para espaços públicos de Salvador, e foi assim que começou a tomar gosto pelas exibições ao ar livre.

rw1

Quando fala sobre seu trabalho, qualquer um sente o gosto que ele tem pelo que faz e a magia que consegue sentir e transmitir através da poesia que sempre (ou quase sempre) acompanha suas fotos. Essa característica vem de quem ele sempre cita:o poeta brasileiro Manoel de Barros. Sem dar muita atenção à poesia rebuscada, Rodrigo gosta de versos acessíveis, da poesia que reflete o mundo de forma simples, delicada e sensível. Adora inventar palavras. Dessa forma, são feitos os seus Causos Fotográficos, trabalho exposto através do seu “Varal Itinerante” e suas caixinhas de madeira recheadas de fotografia e poesia.

Ao sair para acompanhá-lo fotografando na feira livre da cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano, é fácil notar o quanto ele leva jeito para ouvir e lidar com as pessoas, para depois retratá-las do seu melhor jeito: através de poesias fotografadas. Conta que através da fotografia, encontrou a melhor maneira de conhecer e agregar pessoas. Posiciona-se, enquadra e fotografa coisas que passam despercebidas no dia-a-dia de cada um.

rw2

É criador do projeto “Varal Itinerante”, porém, ele reforça quando comenta sobre isso: “Esse é um trabalho coletivo, sem as pessoas que colam na corda, nada aconteceria. Eu só planto a semente”. Através da criação desse projeto, conta com entusiasmo que o “Varal das Artes SAJ”, que ajudou a criar, segue firme. Seu projeto já passou por cidades baianas como Salvador, Cachoeira, Santo Antônio de Jesus, e as vilas de Garapuá, Igatu e do Capão. Na cidade de Cachoeira, expôs seu varal durante Bienal do Recôncavo em 2012 – na qual participou com seus Retratos Imaginados – e durante a Feira Literária Internacional de Cachoeira (Flica), em 2013. Além disso, seu projeto foi parar em São Paulo, nas ruas da USP e nos jardins do Parque Ibirapuera.

Além de Manoel de Barros, Rodrigo tem como inspiração o trabalho de Mario Quintana, Mia Couto e Guimarães Rosa. Todos artistas que tratam o simples e o cotidiano, assuntos preferidos dele. Ele conta que redescobriu a poesia tarde: “A literatura clássica e cheia de métricas, apresentada no tempo da escola, nunca me chamou atenção. Descobrir artistas como esses me despertou o gosto pela poesia que até então eu não conhecia”. Através da influência desses artistas, começou a escrever o que alguns amigos intitularam de “neo-cordel”: assuntos profundos em linguagem simples. Trata de questões filosóficas, poéticas e políticas, muitas vezes com humor. “Como não sou palhaço, a minha necessidade de fazer humor e ir para a rua se expressa dessa forma”. Sendo artista de rua, tem contato direto com as pessoas e adora sentir a espontaneidade delas.

rw3

Além disso, vê a arte de rua e a arte pedestre como uma questão política, no que se refere à falta de atenção de políticas públicas que atendam a necessidade da cultura acessível para todos. “Esquina que tem músico não tem assaltante”. Perguntei se a frase era dele, mas ele disse que leu por aí.

Através do varal itinerante, a ocupação da praça de Santo Antônio de Jesus teve início pela arte. Além de ser uma ação que atrai o interesse das pessoas para a cultura, ela também questiona e exige a necessidade da arte e poesia no dia-a-dia da população. Espontaneamente, ele e mais alguns amigos ocuparam a praça da sua cidade natal com um cinema e fotografias. E o que começou com cerca de 15 pessoas, logo se transformou em dias de praça lotada de gente. Destaca o quanto o desenvolvimento cultural traz o desenvolvimento da cidade.

Atualmente, além de fotografar, Rodrigo estuda, ensina e realiza projetos coletivos. No Labfoto, dá aulas de Iluminação Criativa e faz parte do Grupo de Pesquisa em Fotografia Contemporânea (GRIP). Em oficinas como “Introdução ao Universo Fotográfico” e “Caixa Mágica”, leciona em Salvador e no interior baiano de forma independente. Com esse trabalho educativo, visa despertar o amor pela fotografia através dos seus mistérios, utilizando em paralelo o cinema, a pintura e a poesia.

rw4

Já no final da conversa, perguntei se ele considera-se uma pessoa carismática. Ele me respondeu: “A fotografia na rua foi um instrumento para mudanças profundas. Fotografar nada mais é do que uma boa justificativa pra chegar mais perto das pessoas”. Não ganhei a resposta exata para minha pergunta, mas a conversa me rendeu uma boa conclusão: Rodrigo se esconde atrás da câmera, mas se mostra antes disso. É um jornalista que, por trás da objetiva, encanta através do subjetivo.

Baianos se cadastram para eleições com biometria

ELEIÇÕES DESTE ANO CONTARÃO COM IDENTIFICAÇÃO DIGITAL EM SEIS CIDADES DO RECÔNCAVO

Uilson Campos

Mais 37 municípios na Bahia usarão o sistema de votação biométrica a partir deste ano. Espalhados em 15 zonas eleitorais escolhidas pelo TRE (Tribunal Regional Eleitoral), a biometria será utilizada por cerca de 700 mil baianos, representando 7% do eleitorado total no estado.

A primeira cidade na Bahia a utilizar a identificação biométrica foi Pojuca, na região metropolitana de Salvador, que desde 2010 já fazia uso do sistema nas eleições, sendo o único município do estado contemplado com essa tecnologia, até então.

No Recôncavo baiano, os eleitores de Cabaceiras do Paraguaçu, Dom Macedo Costa, Governador Mangabeira, Muritiba, Santo Antônio de Jesus e Varzedo já se preparam para irem às urnas em outubro identificando-se pela primeira vez com suas digitais.

Prazo prorrogado

Em Santo Antônio de Jesus, sede da 56ª Zona Eleitoral, o recadastramento dos eleitores, iniciado em 7 de agosto de 2013, acontece no FórumDesembargador Wilde Oliveira Lima, localizado na Avenida ACM, das 8 às 14 horas, de segunda  à sexta-feira . Inicialmente previsto para se encerrar em dezembro do ano passado, o atendimento teve seu prazo estendido porque um grande número de eleitores ainda não tinha efetuado o cadastro na data final.

O chefe do Cartório Eleitoral em Santo Antônio de Jesus, Hamilton Sacramento, diz que no início um volume grande de eleitores compareceu ao Fórum para efetuar o cadastro e muitos chegavam de madrugada para garantir o atendimento. Com a prorrogação, o prazo final para o cadastro é 28 de março.

Além de Santo Antônio de Jesus, a 56ª Zona Eleitoral também abrange os municípios de Dom Macedo Costa e Varzedo, abarcando cerca 76 mil eleitores. O chefe do cartório afirma que os que não comparecerem para o registro de biometria terão seus títulos cancelados e não poderão votar com os documentos antigos nas próximas eleições. As pessoas nessa condição terão até o dia 7 de maio para regularizar a situação com a justiça.

Tudo Digital

Comprovante de residência, RG e o título de eleitor antigo são os documentos exigidos para o procedimento. Isso é necessário porque, além do cadastro biométrico, o TRE também está fazendo a “revisão do eleitorado” nos municípios que receberão esse novo sistema. O procedimento é rápido. Após a análise dos documentos, são capturadas as impressões digitais de todos os dedos das mãos do eleitor, colhida sua assinatura e retirada uma foto de seu rosto. Um novo título de eleitor é emitido e o documento antigo é descartado. “É uma facilidade que teremos para as eleições. Com essa modernidade não teremos problemas com identificação”, diz Aldair Gonçalves, uma das servidoras que está trabalhando no cadastro.

Mais segurança?

Todos os dados são registrados digitalmente e armazenados, compondo um banco de informações que, associadas, identificarão a pessoa antes de se dirigir à urna e digitar seu voto. Para Nadson Soares, morador de Santo Antônio de Jesus, o processo de cadastro foi rápido e se tornará eficaz para a segurança nas próximas eleições.  “Vai ficar mais difícil, por exemplo, uma pessoa se passar por outra”, opina o eleitor.  Mas o chefe do Cartório Eleitoral lembra que outros mecanismos são necessários para que se garanta uma votação mais confiável. “Para a eleição se tornar segura é preciso a junção de vários fatores. O fator biométrico é algo que vem reforçar a segurança da eleição, o que não significa que, sozinho, viabilize isso”, declara Hamilton.

 

urnabiometrica

Os eleitores devem comparecer à sede de sua Zona Eleitoral para efetuarem o cadastro.

 


Saiba mais sobre a biometria

A biometria é um tipo de técnica que utiliza “medidas biológicas” para a identificação de uma pessoa. Desde a Antiguidade,  assírios, babilônios, japoneses e chineses faziam uso do recurso, principalmente como “assinatura” em relações comerciais. Esses povos já entendiam que as impressões digitais de uma pessoa eram características únicas e inconfundíveis.

Em 1960, o FBI – Departamento de Investigação da Polícia Federal Americana – iniciou o processo de automatização e digitalização dos dados biométricos em suas bases, com o objetivo de tornar mais precisas as perícias criminais no país.

A popularização dos sistemas de biometria automatizada começou na cidade de Nova York em 1972, quando a tecnologia passou a ser utilizada para o “controle de ponto” dos funcionários nas empresas.

Cachoeira recebe câmeras de segurança 24 horas

CÂMERAS SÃO INSTALADAS EM PONTOS ESTRATÉGICOS PARA REDUÇÃO DA CRIMINALIDADE.

Alan Rocha Suzarte

A cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano, será monitorado por câmeras de segurança 24 horas. Segundo o tenente Eliel Alves, responsável pelo 2° pelotão da 27ª Companhia Independente da Polícia Militar – CPR LESTE, o projeto será custeado com recursos do próprio município e será operacionalizado pela Polícia Militar com apoio dos guardas municipais.

As câmeras estão sendo instaladas nas entradas da cidade,  no centro, na orla e em alguns pontos estratégicos. A iniciativa pretende contribuir para preservar os prédios e monumentos históricos da cidade, a exemplo das igrejas. Deve auxiliar também o trabalho da polícia na prevenção de delitos contra o patrimônio e a população.

Para o tenente, as câmeras ainda estão em processo de instalação, e os equipamentos em fase de teste para analisar possíveis falhas em seu funcionamento.

Ele afirma que a primeira etapa de instalação consiste em vinte câmeras, mas até o momento apenas dezesseis foram instaladas, e o sistema ainda não está implementado de forma adequada. As pessoas responsáveis pelo monitoramento estão em processo de treinamento, entretanto, algumas informações relacionadas a esse assunto, como os locais em que serão instaladas e como será feito o monitoramento, por exemplo, não podem ser passadas por motivos estratégicos.

Segundo a moradora Bárbara Castro, que se diz satisfeita com a proposta das novas instalações, “O mais importante das câmeras é que elas possam ajudar a polícia a agir de forma proativa, reagindo antecipadamente e evitando que a ação delituosa aconteça”.

Está é, também, a opinião de Neto Souza,para quem as câmeras deverão reduzir a criminalidade.  “Eu acho realmente necessário a instalação. Já havia passado da hora, devido a tantos crimes que vem ocorrendo em nossa cidade”.

Desorganização

Ao visitar  a sala de monitoramento, onde já foram instaladas algumas câmeras, é possível notar  que o local não tem estrutura, é desorganizado, os equipamentos não tem um bom funcionamento  e, desde que chegaram, ainda não há ninguém capacitado para operacionaliza-los. Também não foi passada nenhuma informação para os policiais militares sobre as câmeras. Apenas colocaram em local inadequado, com fiação exposta, e  os policiais ainda dividem o mesmo ambiente para realizar outras atividades.

O projeto é uma iniciativa do município que vai agregar a tecnologia para facilitar ou auxiliar o trabalho policial. Isso não dispensará, entretanto, o trabalho dos policiais nas ruas. Também não adianta ampliar o número de câmeras para o monitoramento eletrônico se não houver um policial que possa ir até o local para combater o crime. O objetivo é aliar a tecnologia ao trabalho do policial em campo com a pretensão de reduzir o número de pequenos delitos. Enfim, são várias tecnologias que se agregam para melhorar o trabalho prestado ao cidadão.

Violência é a maior preocupação dos estrangeiros em Cachoeira

PARA ESTRANGEIROS, VIOLÊNCIA TEM IMPACTO NEGATIVO NO TURISMO DA CIDADE.

Rafael Bacellar

A forte cultura do Recôncavo baiano atrai centenas de turistas todos os anos. Muitos vindos de outros países, principalmente da Europa e da América do Sul. É o caso do mochileiro chileno Tayo, que rumo ao Vale do Capão com um grupo de amigos, acabou parando em Cachoeira por causa da Feira Literária Internacional, a FLICA.

Na mesma ocasião, o grupo foi assaltado e, segundo Tayo, ainda assim decidiram ficar aqui por mais tempo. “Mas não são todos que reagem dessa maneira. Algumas pessoas se assustam”, completa.

10156926_10200697903049665_1324269718_n

Isabel Pasternack: “Olhos azuis chamam mais atenção dos ladrões” (Foto: Aline Lima)

Com o programa de intercâmbios, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) também traz estudantes de fora para Cachoeira, como a aluna do curso de Gestão Pública Isabel Pasternack, 23, que veio de Bayeurth, na Alemanha, para passar um semestre estudando aqui no Brasil.

“Eu poderia ter escolhido outras cidades, mas eu queria conhecer o Brasil de verdade”, diz. Para ela, a maior diferença entre a Bahia e sua terra natal está nas relações entre as pessoas. “Dizem que nos lugares mais quentes as pessoas são mais próximas”, conclui.

Mas quando questionada a respeito dos pontos negativos da cidade, respondeu prontamente: “Desde que eu cheguei as pessoas me dizem pra tomar cuidado. Por ser loira dos olhos azuis, eu acabo chamando mais atenção dos ladrões.”

10173420_10200697917530027_596610334_n

Cristina Solimanos: “Redução do número de turistas” (Foto: Aline Lima)

A argentina Cristina Solimanos, 70, vive em Cachoeira por quase trinta anos e, além de artista plástica, é dona da pousada La Barca. Segundo ela, o aumento da violência é a principal causa da redução no número de turistas que ela recebe em seu estabelecimento. Há trinta anos, quando ainda desenhava o rosto das pessoas nas ruas e restaurantes e a cidade não era tão violenta, havia muito mais turistas, e foi por isso que ela decidiu abrir o negócio. “Hoje a pousada funciona com os ecos da universidade”, conclui, referindo-se à UFRB, que com seus inúmeros eventos e palestras acaba movimentando o turismo local.

Dados do Comando da Polícia Militar de Cachoeira indicam que Cristina pode estar certa. No ano de 2013, 112 furtos e roubos aconteceram no município. Em grande parte dos casos, as vítimas eram estudantes ou estrangeiros.

Comércio em baixa

QUEDA DAS VENDAS EM GOVERNADOR MANGABEIRA TRAZ PREOCUPAÇÕES AOS COMERCIANTES.

Cristhiele Maiane Teles Conceição

Governador Mangabeira passa por um período sem crescimento no comércio local. Desde o mês de dezembro as reclamações dos comerciantes aumentavam a cada dia. “A cidade vive um péssimo momento. A queda está constante”, afirma a comerciante Nizete Fiúza.

O principal motivo dessa queda de consumo na cidade está ligado ao fato de que a maioria da população prefere consumir no comércio das cidades vizinhas, a exemplo de Cruz das almas, a maior delas, localizada a 12 km. È bastante desenvolvida, com um bom crescimento no comércio devido à chegada da UFRB. E já possui grandes redes de lojas no centro comercial.

Comerciantes e consumidores locais acreditam que os comerciantes de lojas não investem nas compras dos seus produtos. Eles compram, em quantidades maiores, roupas iguais, mas não investem em produtos da moda, o que resulta em pouca variedade. Neste caso, fazem com que os consumidores busquem a cidade vizinha, onde há mais diversidade de lojas e variedade dos produtos. Há ainda o fato de que, em Cruz das Almas, as lojas facilitam as compras, dividindo-as em parcelas maiores e sem juros.

Os comerciantes, tanto de lojas quanto dos salões de beleza e lojas de móveis, afirmam que eles se deslocam até outros estados para comprarem produtos do gosto de seus clientes, porém, a população mangabeirense não se satisfaz e não valoriza seus produtos buscando alternativas em outros lugares. As mulheres buscam comércios que possuem “status”, salões chiques, recorrendo a cabeleireiros com nomes conceituados.

“A população não resiste ao comércio vizinho. O impacto está sendo grande para nós comerciantes, mas dá para sobreviver. Pelo que vejo, é meio que impossível deixarem de ir para Cruz, mas quando eles precisam de algo imediato, procuram o comércio da cidade. Os homens não se importam com status, já as mulheres sim, são levadas por influências”, diz Mari Cerqueira.

Os comerciantes de supermercados concordam com essa avaliação. Dizem que, devido à abertura de muitos estabelecimentos comerciais na cidade, onde a demanda de habitantes é pouca para a logística existente, a falta de opção e variedade é constante. Cruz das Almas, com seu comércio ilimitado, possui redes de grandes lojas, tornando as opções variáveis, sendo assim, os consumidores saem em vantagem e a demanda consegue ser extensa. Os gerentes das lojas de materiais de construção não sentiram tanto quanto as outras o impacto da queda das vendas. Às vezes a redução é comum, mas de uns tempos para cá, não têm do que reclamar.

Segundo a expectativa dos comerciantes de Governador Mangabeira, a previsão mais evidente para esses meses é que as vendas apresentem a mesma situação vivida até o mês de abril. Ainda assim, acreditam que próximo ao mês de junho, a procura e a expectativa aumentam para terem um bom rendimento nas lojas.